domingo, 11 de janeiro de 2009

O olhar dos mortos

(dedicado a ti que me olhavas nos olhos)

A noite cai e ainda se faz sentir o pesado calor.

Descalço, caminha um menino, pele macilenta porque o brilho da pele negra se mistura com o pó do solo árido.

Canta. Caminha despreocupado e canta.

Ao longe, na casa ao fundo da rua, brilha uma luz pela janela. A luz dança como que embalada pela voz do menino.

Abre-se a porta e sai uma mulher negra, olhos negros, vestida de cores garridas que se abre num sorriso por onde sai a brancura imaculada dos dentes.

O menino, ao ver a mãe, deixa de cantar para soltar uma sonora gargalhada. Acelera o passo e corre no limite das suas capacidades atirando-se ao pescoço da senhora que o eleva do chão e o olha nos olhos.

Entram e sentam-se à mesa. O menino roda a cabeça e observa tudo. A sua nova casa, mais pobre, naquela cidade mais suja, a comida mais escassa e a água mais turva.

Naquela casa não há livros, não há televisão, há jornais, muitos, que cobrem o chão de terra e contam notícias de tempos idos.

À sua frente um prato de arroz e uma galinha assada. Notava-se que a mãe não fazia galinha regularmente. A pele queimada e o sangue nos ossos provavam que a senhora nunca tinha cozinhado uma. Mas o dia era de festa. O filho havia regressado e voltavam a ser uma família.

Come a galinha e o arroz vorazmente. A excitação do regresso a casa abrira-lhe o apetite.

Enquanto mastiga, mostrando o bolo revolvendo-se na boca aberta, olha a mãe que o olha embevecida. Vê-o comer, esquecendo-se de o fazer.

Não há palavras, há olhares.

O menino, enquanto mastiga e olha a mãe nos olhos, ouve os ruídos daquela África da qual não se recordava mas onde se sente em casa.

Compara-os aos ruídos da grande cidade, às máquinas infernais, aos alarmes, às sirenes constantes, às buzinas. Prefere os sons desta terra que agora é sua.

Prefere as cores também, e as temperaturas que tornam as roupas desnecessárias.

E o olhar brilha finalmente. Está em casa.

Eu também o olho nos olhos, vejo a história que ficou por contar. Ouço a mãe cantar-lhe uma canção de embalar enquanto pousa a cabeça no regaço.Sente o arrepio bom de estar em casa. Estremece. Abre os olhos e olha-me uma última vez, o olhar que conta a história. E assim, de olhos abertos, deixa-se adormecer no colo da mãe enquanto o olhar me diz: “Voltei a casa!”.

14 de Dezembro de 2008

3 comentários:

pinguim disse...

Que sonho lindo, não teria sido...
Abraço amigo.

geocrusoe disse...

que pena ser apenas ideais da vida e não vida reais... como teria sido bom na realidade

Anónimo disse...

Nossa muito bonito vou publicar na minha escola é um sonho maravilhoso*-*