domingo, 19 de abril de 2009

Lago

Sinfonia da vida real

Abertura
Caminha despreocupado. Saira cedo do conforto de casa e como quem desperta de uma infância calma, deslumbra-se com as luzes e a profusão das cores.
A necessidade de conhecer tudo, fruto de uma curiosidade insaciável, levam-no a percorrer todas as ruas da cidade, das grandes avenidas e praças às pequenas ruelas e becos sujos.
Ao sair de casa, ao abrir a porta das paredes que o protegeram, não só deixara entrar a luz mas o espaço vazio que precisava de encher com experiências.
A cidade não bastava, passados dias, meses, anos, a novidade tornara-se conhecimento e nunca mais deixara de procurar novas paisagens, novos rostos, cheiros e sabores.
É este o dia em que o encontramos. Aventura-se para além dos limites da cidade, passa os subúrbios das casas dos ricos seguidos dos blocos onde habita a miséria. Mais adiante acaba a estrada e um caminho serpenteia por entre montes e vales. O caminho vazio, abandonado, que leva ao desconhecido.
Poucos são os que percorrem o caminho. Dizem-no perigoso, destruidor de almas, comedor de sentimentos, mas o abismo atrai-o e quer saber o que há mais além.
Já ao fim da tarde, antes do sol pôr, acaba o caminho, notam-se vários trilhos de outros aventureiros que procuraram acalmar a pressão que o vazio criara nos seus peitos esmagados por um enorme buraco. Decide tomar o seu caminho, não seguir o trilho de ninguém mas criar o seu.
O coração salta com a excitação do que é novo, único, seu. Sobe montes, desce a vales, a mata adensa-se, não há volta atrás. De repente, ao chegar ao cimo de uma colina vê um lago, um lago que brilha dourado sob o sol do fim da tarde.

Cadência Perfeita
Nas águas douradas, porque reflectem o sol do entardecer de um dia sem núvens, vê o reflexo do mundo. Vê-se reflectido nele e nessas águas paradas e limpas o mundo e o seu rosto integram-se numa harmonia invejável.

Suspensão
É o espelho do mundo perfeito, por descobrir. Um mundo que brilha porque brilha o sol e porque as águas paradas emprestam à paisagem a superfície macia que limpa a imagem espelhada das imperfeições, dos elementos e a tornam etérea e divina.

Síncopa
Descompassado, deseja as águas. O mundo e o homem não querem ser esse reflexo perfeito mas fazer parte da imagem reflectida na água. Quer ser água para dar imagem ao mundo e limpá-lo das impurezas, torná-lo perfeito e unido.

Dissonância
Já nu entra na água lentamente. Quer misturar-se nela, transformar-se em água pura, mas o seu movimento, a sua entrada no lago das águas calmas e limpas, move a água ao seu redor, distorcendo a imagem do mundo perfeito, alterando as linhas que já não são o reflexo do mundo. A sua própria imagem reflectida nas águas se distorce, torna-se irreconhecível até desaparecer.

Pausa
Quer voltar a ver a imagem perfeita e fazer parte desse mundo. A razão da sua entrega. Pára. Não respira. Imobiliza-se até as águas do lago encontrarem de novo a tranquilidade que dá ao lago a capacidade de espelhar um mundo perfeito. A imagem perfeita ressurge reflectida na superfície do lago.

Variação do tema
Não consegue manter-se muito mais tempo sem respirar. Na tensão provocada pela sua imobilidade, pelo seu não respirar, deixa de conseguir apreciar o mundo perfeito reflectido no lago. Deixa-se respirar e o ligeiro movimento dos seus pulmões dá ao lago um leve ondular que altera a imagem uma vez mais. A imagem é a mesma, ainda bela mas com linhas mais complexas, mais vivas, que ondulam ao sabor da sua respiração.

Contra-tema
Decide então mergulhar, fazer parte do lago que lhe dá o mundo belo, ser o lago, ser o mundo espelhado no lago. Abre os olhos e vê o mundo real para lá da superfície. Um mundo ao contrário, pintado pelo cintilar das águas atravessadas pelo sol e ainda assim um mundo tão perfeito como o que antes via reflectido na mansidão das águas.

Fuga e Coda
Não aguenta mais o não respirar, com um impulso vem à superfície para recolher ar e volta a mergulhar, impregnado que está por um mundo perfeito. A imagem do mundo passa a ser a real mas também a reflectida e ainda a vista para além da superfície do lago, nunca perfeita, nunca imutável, o vazio cresce no peito porque o mundo perfeito já não está ali, nem dentro nem fora da água, nem sequer espelhado na superfície. Num mergulho mais profundo chega perto do fundo do lago onde jazem outros seres incautos que um dia pensaram ser possível viver num mundo perfeito e por isso entregaram a vida que o lago exigiu. Sabe que ainda há mais mundo por descobrir e que para lá daquele mundo idílico e perfeito há um mundo real, não reflectido nas águas paradas de um lago profundo, havendo no meio dele um casulo que o havia protegido dos segredos das águas calmas. Sai da água decidido, esmagado por saber que nunca mais verá a imagem do mundo perfeito e dirige-se à grande cidade sem olhar para trás.

sábado, 24 de janeiro de 2009

O Camafeu


Soprava o vento lá fora, os poucos vidros que restavam suspensos da caixilharia de uma das janelas da casa, pareciam estremecer de frio com cada novo sopro do vento, ou talvez com medo de acabar como mais um escombro daquele lugar perdido entre eucaliptos, pinheiros e alguma palmeira exótica trazida doutro clima por algum emigrante que crescia resignada entre estranhos. Nesses tempos, éramos poucos os que ainda vivíamos aqui depois do incêndio do grande hotel do qual só tinha sobrevivido o palco da música, a gente tinha decidido esquecer...

Só uns quantos velhos nostálgicos e eu, um lobo solitário, vagueávamos neste lugar. Nessa tarde de tempestade estava a passear sob o meu guarda-chuva entre o entulho de sonhos frustados, pisando com raiva as folhas que se estendiam a meus pés, como um entardecer de verão e ouvindo o seu estalar. De repente senti algo duro sob a sola da minha bota, instintivamente baixei-me, e, com a ponta dos meus dedos toquei algo belíssimo, puro, pude sentir a sua magia, algo intenso, uma sensação única, o mesmo que um explorador a descobrir um sarcófago. Era um camafeu de marfim atravessado por uma estrela de prata velha e com uma pérola sem brilho num dos extremos. Desde a infância não tinha visto nada assim, parecido com os que costumavam usar as mulheres estrangeiras dos emigrantes que regressaram enriquecidos da diáspora. Recordo a minha mãe quando cozinhava para uma destas senhoras, dizia-me que, à noite, praticavam rituais estranhos para falar com os seus antepassados e parentes crioulos, envolvidas por uma atmosfera carregada de odores de erva molhada e de almíscar. Por isso pensei um pouco antes de levantar a bisagra corroída que o mantinha fechado porque podia guardar um mal olhado ou uma maldição... mas não pensei muito mais porque um ruído que vinha de uns arbustos tirou-me da minha cisma... Guardei o medalhão ainda fechado no bolso, fechei o meu guarda chuva de xadrez e com passo rápido fui para casa.

Ao chegar, a primeira coisa que fiz foi pôr-me cómodo, vesti o pijama de flanela para que me protegesse do frio intenso e sentei-me no cadeirão que está ao lado da lareira. Depois de passar uns momentos acariciando o relicário, decidi dar o passo que faltava e abri-lo. Assim que levantei o fecho, o sol colou-se às cortinas da sala iluminando-a e inundando o lugar de uma côr extraordinária que me cegava. Dando um passo até à janela pousei os meus olhos no sol que agora luzia entre os restos da tempestade como a polpa de uma romã madura, e, ainda que fechando a cortina, o sol continuou a colorir a sala de âmbar. Finalmente, já impaciente devido às contínuas interrupções, levantei a tampa e o que vi seria a última que esperava ver, nada, nada de nada, o camafeu estava vazio, nem um retrato, nem uns cabelos, nem os ponteiros parados de um relógio, nada. O que via era uma superfície de nácar irisado que toquei instantaneamente e que sob o reflexo daquela luz, brilhava como se fosse ouro. Ao fazê-lo, imagens de desespero, de sonhos desfeitos, de pena e impotência invadiram-me. Prantos, muitos prantos, e gritos, e de fundo, música de violinos e flautas que se tornava mais aguda e mais aguda... Era tanto o mau estar causado por aquela melodia cada vez mais rápida e penetrante, acompanhada por aquelas terríveis imagens, que soltei a medalha, deixando-a cair ao chão e sentei-me no meu cadeirão com a cabeça para trás. Estive assim vários minutos até ter coragem de enfrentar aquele objecto. Depois de reflectir um tempo, decidi que era melhor guardar a jóia e não voltar a tocá-la. Passado alguns dias, fruto da atracção que exercia sobre mim, abri-o novamente mas, para minha surpresa, onde antes havia nácar, só havia uma supefície lisa e negra. Decidi que o melhor seria vender a jóia, embrulhei-a em papel de jornal, amarrei o embrulho tosco com uma corda velha e meti-o no bolso do casaco, mas ao sair de casa tudo havia mudado, no lugar dos escombros calcinados do velho hotel erguia-se um majestoso edifício do qual saía gente muito elegante e famílias sorridentes, a margem do rio estava cheia de famílias que brincavam na água e os anciãos caminhavam pelos passeios cumprimentando-se. Não entendia o que se estava a passar, porquê tanta animação na cidade? Reparei que tudo o que via se tinha tingido da mesma côr que tinha visto havia alguns dias no nácar. Como se de um pergaminho ou de um retrato antigo se tratasse, tudo tinha tons de sépia que davam ao ambiente uma aparência de recordação. Pestanejei e quando abri os olhos, tudo era normal, tudo menos uma coisa, o nó da corda com que tinha atado o medalhão estava desfeito, ao abrir o embrulho, reparei que o camafeu estava aberto, e quando o quis fechar algo me impediu, a superfície do que eu supunha ser azeviche, tinha adquirido relevo e nele podia apreciar a cara de uma velha de rosto sulcado pelo tempo, de cabelo branco como tingido de flocos de neve e tão comprido que não cabia na reduzida superfície. Na sua cabeça repousava o vento encolhido e ao redor do seu pescoço havia amoras doces e morangos silvestres, e folhas secas, e penas e ramos. O seu sorriso era uma torrente de água fresca e no seu olhar via uma luz mágica que baixava da abóbada celeste e, dividindo-se em cores infinitas, penetrava o oceano e dele saia chocando com a concha esmaltada de um caracol. Nunca tinha visto olhar tão bonito, irradiava ternura, sabedoria e uma gotas de tristeza. Absorto nesta imagem, introduzi a ponta dos meus dedos na pedra como quem acaricia o seu cabelo sem despertar o vento que descansava nele como se fosse um ninho de pássaro. A anciã falou-me sem dizer nada, fez entrar em mim a sua mensagem e desvaneceu-se.

Agora eu sabia aquilo em que muito poucos acreditariam, sabia o segredo para devolver áquela terra a sua alma, o seu espírito, a sua alegria, o seu bulício.

A solução estava sob as velhas tábuas de madeira corroida do palco de música. Tinha sobrevivido ao impassível exército do fogo e, debaixo desse cenário de madeira que desfiz com facilidade, pude ver que algo palpitava com ritmo constante nas entranhas da terra. Cravei o camafeu no centro do círculo que formava o palacete e, nesse mesmo instante, um manancial de água brotou do chão libertando centenas de bolbulhas que continham os sonhos perdidos de tanta e tanta gente, os seus esforços, as suas lágrimas... dispersaram-se com o vento que polonizou todos os cantos da cidade. A música voltou a tocar, violinos e flautas, mas desta vez uma melodia de esperança, que acariciava as folhas das árvores.

Radica-se nesse canto o segredo desta cidade, na sua fonte onde se dissolvem sonhos e alegrias, memórias e tristezas: almas.

Nunca mais soube do camafeu, não sei onde o levaram as águas, espero que tenha sido levado a outra aldeia ou cidade, que esteja onde alguém necessite recuperar a ilusão.

domingo, 11 de janeiro de 2009

O olhar dos mortos

(dedicado a ti que me olhavas nos olhos)

A noite cai e ainda se faz sentir o pesado calor.

Descalço, caminha um menino, pele macilenta porque o brilho da pele negra se mistura com o pó do solo árido.

Canta. Caminha despreocupado e canta.

Ao longe, na casa ao fundo da rua, brilha uma luz pela janela. A luz dança como que embalada pela voz do menino.

Abre-se a porta e sai uma mulher negra, olhos negros, vestida de cores garridas que se abre num sorriso por onde sai a brancura imaculada dos dentes.

O menino, ao ver a mãe, deixa de cantar para soltar uma sonora gargalhada. Acelera o passo e corre no limite das suas capacidades atirando-se ao pescoço da senhora que o eleva do chão e o olha nos olhos.

Entram e sentam-se à mesa. O menino roda a cabeça e observa tudo. A sua nova casa, mais pobre, naquela cidade mais suja, a comida mais escassa e a água mais turva.

Naquela casa não há livros, não há televisão, há jornais, muitos, que cobrem o chão de terra e contam notícias de tempos idos.

À sua frente um prato de arroz e uma galinha assada. Notava-se que a mãe não fazia galinha regularmente. A pele queimada e o sangue nos ossos provavam que a senhora nunca tinha cozinhado uma. Mas o dia era de festa. O filho havia regressado e voltavam a ser uma família.

Come a galinha e o arroz vorazmente. A excitação do regresso a casa abrira-lhe o apetite.

Enquanto mastiga, mostrando o bolo revolvendo-se na boca aberta, olha a mãe que o olha embevecida. Vê-o comer, esquecendo-se de o fazer.

Não há palavras, há olhares.

O menino, enquanto mastiga e olha a mãe nos olhos, ouve os ruídos daquela África da qual não se recordava mas onde se sente em casa.

Compara-os aos ruídos da grande cidade, às máquinas infernais, aos alarmes, às sirenes constantes, às buzinas. Prefere os sons desta terra que agora é sua.

Prefere as cores também, e as temperaturas que tornam as roupas desnecessárias.

E o olhar brilha finalmente. Está em casa.

Eu também o olho nos olhos, vejo a história que ficou por contar. Ouço a mãe cantar-lhe uma canção de embalar enquanto pousa a cabeça no regaço.Sente o arrepio bom de estar em casa. Estremece. Abre os olhos e olha-me uma última vez, o olhar que conta a história. E assim, de olhos abertos, deixa-se adormecer no colo da mãe enquanto o olhar me diz: “Voltei a casa!”.

14 de Dezembro de 2008