segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A Diva


Abre o armário onde guarda os vestidos dos seus concertos, entra e viaja pelo mundo, Lisboa, Londres, Paris, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Sidney, Tóquio, Amesterdão, Cidade do Cabo, Munique, Toronto, Buenos Aires,...

Pousa as mãos estragadas pela idade, pelas noites mal dormidas, pelos excessos, nas sedas, nas rendas e cetins, nos veludos que guardam ecos de auditórios cheios, aplausos calorosos e aromas idos; cada um guarda uma história de amor, uma entrega, uma paixão; paixão pelo público, pela música.

Pára no vestido negro, vê o grande teatro da capital a transbordar de gente que grita o seu nome, honras de Estado que celebram sessenta anos de carreira, sobre o vestido repousa a medalha de ouro de mérito cultural que a fizera embaixadora da cultura da pátria que um dia a amara.

Olhando o vestido, afagando o brilho da medalha nas suas mãos, sente-se traída, abandonada.

Desde o dia em que o vestira, não ouvira mais palmas, deixara de escutar o seu nome, como as dezenas de homens a quem se entregou de corpo e alma, sempre com o mesmo fogo, também o seu público, o seu grande amor a quem um dia dera tudo, a abandora.

Sente-se traída, a mesma dor do abandono, das paixões, dos homens que saciaram os seus desejos com a sua fama e a sua riqueza. Sente-se utilizada mais ma vez, aquela medalha é a prova disso, é o ramo de rosas vermelhas do homem que faz o sacrifício de dormir com ela para aceder ao seu dinheiro, é um país que se prostitui e utiliza aquela a quem chamou puta, aquela que a ele se entrega, para se promover nos quatro cantos do mundo.

Entretanto, esquecida e só, sente falta do calor do público, de ouvir a sua voz na rádio e na televisão, enquanto o vestido negro repousa no seu regaço e se ri dela.

Apesar dos seus quase oitenta anos sente as dores da traição e do abandono como na sua juventude.

Nesse fogo de dor e angústia, sai com o vestido negro entre os dedos enrugados e vai em busca de uma tesoura. O vestido ri-se dela cada vez mais alto, em gargalhadas de escárnio e nas palmas que ecoam e sobem de tom.

Palmas, não pode viver sem elas, não pode viver sem o amor do público.

Encontra a tesoura grande, senta-se na cama e prepara-se para cortar o vestido, fazê-lo em pedaços tantos como as palmas que com ele recebeu. O vestido guarda as memórias, as palmas que quer ouvir, não pode viver sem elas. Empunha a tesoura, vestido no colo, espeta-a no coração.

No dia seguinte a sua voz faz-se ouvir na rádio e na televisão, os seus discos voltam a vender para lucro daqueles que sempre se souberam aproveitar da sua entrega, enquanto uma multidão chora e aplaude a grande diva pela última vez.

3 comentários:

Paulo disse...

engraçado como se pode entrar na cabeça de uma personagem real e criar ficção assim, com a tesoura rumo ao coração! para os mitos modernos, há sempre algo que lhes sobrevive: o comércio.

Diabba disse...

Oube lá, num andas um bocadito tenebroso?

De quem falas?

beijo d'enxofre

geocrusoe disse...

confesso que não concretizo a diva com uma vida real, mas muitos heróis desta vida passaram pelo mesmo e se a humanidade não mudar, muitos outros viverão o mesmo com os respectivos beneficiários da tristeza provocada pela injustiça.