terça-feira, 10 de junho de 2008

A serenata



Fecha a porta com estrondo e avança destemido a passos largos sob a chuva copiosa.

As palavras que proferira momentos antes ressoam-lhe na cabeça. A violência das palavras toma forma e entranha-se, provocando o coração que se havia fechado, abrindo-o num latir violento e descompassado.

Acelera o passo sem olhar para trás. Não quer olhar para as janelas que escondem um amor despedaçado.

Decide virar à esquerda, já que a rotina o fazia ir em frente ou virar à direita. Assim, virando à esquerda, segue, rumo ao desconhecido, fazendo com que o passado se torne realmente passado.

Quer descobrir coisas novas que lhe desviem a mente das palavras que proferira, do sofrimento que deixara do lado de lá das janelas da casa de onde acabara de sair.

Mas as palavras ecoam e os seus olhos abrem-se num mar de lágrimas. Não é um choro convulsivo, são lágrimas que simplesmente deslizam pelo seu rosto molhado pela chuva, como se os olhos se tivessem enchido de palavras e não as pudessem conter.

Quem o vê não sabe que chora. As lágrimas misturam-se com a chuva que é tão violenta como as palavras que proferira minutos antes ao amor, agora despedaçado, que ainda se encontra do lado de lá da janela.


* * *

Sentado num café, vê um velho amigo.

"- Então pá, por onde tens andado?"
"- Por aí. E tu? Ainda só?"
"- É verdade, uma vez chegou!"

Conversa puxa conversa e o passado, o tal que se queria esquecido aparece de mansinho. O tal amor, o do lado de lá da janela regressara à cidade. “ – Queremos falar contigo.” – diz o seu velho grande amigo.

Os seus ouvidos recusam-se escutar a última frase.

“ – E como está? Passaram tantos anos...”

Mas, lentamente o cérebro vai decifrando a mensagem. “Queremos falar contigo” – e a frase já não lhe sai da cabeça. O coração aperta-se-lhe angustiado.

“ – Que queres dizer? Pensei que eras meu amigo.”
“ – Sempre o fui, Foste tu quem decidiu partir, quem nunca voltou atrás.”
E de repente o passado fez-se presente. “– De qualquer forma, amanhã celebramos uma nova vida em conjunto. A partir das cinco da tarde no registo civil da praça. Aparece!”


* * *

Está só no café.

“ – Amanhã às cinco” – pensa – “claro que não vou!”

Embriagado, sai. Está um dia como aquele em que saíra de casa depois de dizer palavras violentas que de novo ecoam na sua cabeça e apertam o coração.

Caminha à chuva, sente-se febril. Não sabe se é da chuva, do frio, do álcool ou do tabaco. Sente a roupa molhada numa mistura perfeita de suor e água da chuva.

Decide que não vai. Que desplante, aquele convite! Porque haveria de ir? Porque pensa tanto no passado?

“ – Mas porque não hei-de ir? É o meu melhor amigo, só provarei que o passado é passado.”

Chega a casa quando o negro do céu dá lugar a um cinza cumbo.

Sente-se cansado. Uma noite de chuva, álcool e tabaco deixara terríveis mazelas.

Não adormece de imediato. A febre, as dores de garganta não o deixam dormir e quando finalmente adormece, sonha com o seu melhor amigo e com o amor que um dia deixou do lado de lá da janela.

* * *

Abre os olhos. Está escuro lá fora. Olha para o relógio.

“ – Merda! Já são nove horas.”

Sabia onde era o registo, não a festa. Caminha apressado até ao registo civil que está fechado. Vazio.

Vai em direcção à casa que um dia deixara. A probabilidade de ser lá a festa é remota mas é a única referência que tem.

As luzes estão apagadas. Senta-se na soleira, perdido. Pára um táxi à porta e dele sai o vizinho da frente. Está velho e vem só sem a sua bela senhora. O preto da gravata diz que também o tempo acabara com o amor da sua vida.

Falam, recordam o passado, aquele que queria esquecer. E finalmente sabe onde é a festa. No hotel da avenida.

Despede-se do antigo vizinho, feliz com o encontro e dirige-se ao hotel da avenida.

Já não há festa. Sempre atrasado como que se o passado que um dia mandara embora, se tivesse ido por bem.

Senta-se n0 bar do hotel. Pede um copo para ver se alivia o seu estado febril, as dores do corpo, mas sobretudo as dores da alma.

Fala da festa com o empregado que o serve.

“– Grande festa! Devem ter muito dinheiro, imagine o senhor que ficaram na suite presidencial!”

Terminou rapidamente a bebida, pagou e saiu em direcção a casa. “– Se não me vêem, pelo menos ouvir-me-ão.”

* * *

A guitarra não tinha sido usada desde que batera com a porta da casa onde deixara do lado de lá da janela um amor despedaçado.

As cordas oxidadas ameaçavam partir ao primeiro acorde. O braço torto, a caixa empolada e o revestimento descolado.

Teria que conseguir. Sempre fizera serenatas que eram acolhidas com uma longa noite de carinhos e com um brilho especial no olhar.

Chega ao hotel, já o céu começa a clarear. Procura a janela da suite presidencial. Por baixo há uma floreira sobre a qual apoia a perna esquerda e nesta apoia a velha guitarra.

A guitarra aguenta os primeiros acordes enquanto a sua garganta estragada consegue emitir uma voz quente, profunda e doce.

Mas as cordas da guitarra começam a ceder àquele misto de bolero e bossa nova. Quando a última corda se parte, dá a volta à guitarra e usa a caixa mudada pelo tempo como percussão.

A sua voz enche a avenida na aurora daquele dia. Estragada pelo fumo, pelo álcool, pelas noites mal dormidas, também a voz acaba por ceder.

Olha para a janela e pensa “– Não me viu mas ouviu-me”.

Dirige-se a casa e ao passar à porta do hotel ouve o concierge dizer: “ – Era este o que fazia a serenata à suite presidencial, só que estes já devem estar a caminho das Maurícias.”

Enfia a guitarra sem cordas no saco.

E aquele passado que um dia despedira tão violentamente, nunca estivera tão presente, sem, no entanto, não deixar de ser passado.

3 comentários:

Diabba disse...

Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, a desgraça não persegue este homem, é ele que persegue a desgraça, quere-a, deseja-a!

Por isso um mundo tão sombrio de chuva e amanheceres cinzentos.

Há que saber parar.

beijo d'enxofre

geocrusoe disse...

será vida real mesmo uma sucessão de desencontros ou de decisões atrasadas?
Penso que não, mas que estarão presentes e surgirão mesmo quando não queremos e que magoarão muito mais do que aquilo que a chuva ou a janela embaciada disfarçam acredito... o saber ultrapassar essas dores é a arte real da vida.

Anónimo disse...

Estas histórias são sempre tão tristes,vivi muitos anos assim e não ganhei nada com isso,no amor é dificil ouvir um não, ou viver com pessoas possessivas e ciúmentas,a vida torna-se um inferno,temos que dar espaço a quem vive perto de nós,e por vezes isso é dificil,porque quando se ama muito, o amor é cego.Beijinhos e esquece esses amores loucos FIFI