domingo, 25 de maio de 2008

Fronteira


“Que estranho” – pensava - “Mudam de pele todos os dias!”

Ainda se adaptava aos seus novos amigos.

Tinham-no acolhido depois do seu companheiro de longos anos ter sido levado num carro amarelo com luzes azuis.

Nesse dia ficara ali a olhar. Correu atrás do carro até à exaustão. Ninguém lhe ligava. Vagueou pela cidade e regressou ao parque onde vivia com o seu companheiro.

Outros homens, estes vestidos de azul escuro e não de branco como os que tinham levado o seu companheiro, removiam os seus haveres.
Deitou-se à sombra de uma árvore, triste, só.

Quem lhe iria fazer companhia? Quem iria dividir com ele a comida? Notou que tinha fome e foi à procura de comida.

Já sem forças, depois de percorrer meia cidade, vê um portão aberto. Espreita.

Do lado de lá, um jardim. Bem cuidado, relva verde acabada de cortar. Dá um passo.

“Ping, ping...” – ouve água. Sedento da caminhada, segue o som. Entra sem hesitar.

O jardim é belíssimo. Mais bem cuidado do que o parque onde vivia com o seu companheiro levado pelos homens de branco num carro amarelo e luzes azuis. Não entendia porque é que este jardim não estava cheio de gente como o parque, principalmente num dia de sol como aquele.

Bebe e, sem forças, à sombra do frondoso plátano sobre a relva verde recém cortada, deixa-se dormir.

Sonha com o seu companheiro e amigo desaparecido.

Desde as suas mais antigas memórias, quando outro carro levara a sua mãe, não se separara dele. Ouvia as suas longas histórias à noite no parque sob o calor da sua mão. Sonhava que o seu companheiro cantava ao som da guitarra com apenas quatro cordas. Ouvia-o rir-se dele, de si mesmo, dos que passavam.

Exploravam o parque e a cidade. Sem horas. Fugiam dos carros azuis de luzes azuis, como quem joga às escondidas. Brincavam, corriam e riam. Amigos fiéis. Companheiros eternos.

Acorda com o som do portão que se fecha. Vê quatro pessoas, dois adultos e duas crianças. Tenta esconder-se mas antes de chegar ao arbusto é visto.

Baixa a cabeça, olha para o chão como se tivesse sido apanhado a cometer o pior dos crimes.

“ – Meninos, já para dentro!” – disse o homem.
“ – Pai, parece tão triste e está tão magrinho...”
“ – Mas está sujo e pode estar doente, por isso lá para dentro!”
“ – Pai, tem fome, não o podes mandar embora assim...”

Ao ouvir a voz da criança, olha para ela. Levanta a cabeça e dá um passo. O seu olhar, no entanto, mostra uma enorme tristeza.

“ – Pai, deixa-o ficar, Queremos brincar com ele.”
“ – Sim pai, deixa lá, deixa, deixa!...”

A mãe esboça um sorriso.

“ – Vou preparar-lhe um banho e algo de comer. Tens fome não tens?”

Não se lembrava do seu último banho, ou se alguma vez tinha tomado um. Não gostou muito de entrar na água, mas aquela mão macia que o acariciava, a voz quente daquela senhora e a alegria constante daqueles meninos davam-lhe uma sensação de conforto e de carinho.

Deram-lhe comida. Comida só para ele. E muita. Daria para uma semana, talvez duas!

Duas semanas passaram. Agora dormia sob um tecto. Tinha comida todos os dias. Brincava com os meninos.

“ – Esta gente é estranha, boa mas estranha. Come a horas certas, saem de manhã cedo e só regressam ao fim da tarde. Não me deixam ir além do jardim e da cerca para explorar o que há do lado de lá. Sentam-se em frente à caixa das luzes e dos sons em vez de ir brincar e conhecer o mundo com os seus cheiros, os seus sons e as suas cores, como o fazia no parque” – sim, a caixa mágica tinha cores e sons, mas não tinha cheiros.

Olhava para eles. Observava-os. “ – Que estranho” – pensava – “Mudam de pele todos os dias!”

Estava grato a esta gente, a sua nova família, mas tinha saudades. Saudades do seu companheiro, de explorar o mundo, de não ter horas, de nunca estar só, de fugir dos carros azuis das luzes azuis como quem joga às escondidas, de ouvir histórias, de ouvir cantar.

Além de lhe mudarem os hábitos, mudaram-lhe o nome. Agora era Bobby. Antes era Mawgly, mas também a este se habituara.

sábado, 3 de maio de 2008

O outro lado da janela



Era o fim da tarde. Um fim de tarde de um complicado dia em que decidiu deixar o trabalho e foi até ao café envidraçado sobre a praia.

Sentou-se só junto à vidraça e pediu um chá. Um simples chá preto, sem açúcar, numa chávena embrulhada pelas mãos frias por causa do frio vento do norte que soprava lá fora e da bruma que se levantava.

Olhava o mar revolto que espelhava o céu chumbo que prenunciava a chegada da tempestade. Nesse mar distinguiu um barco que chegava à praia.

Atracou e um homem só, bravo homem, amarrava o barco com uma desenvoltura e energia que gostava de ter.

E ali estava aquele homem na praia, livre, sem medo.

Aquele homem seria como as gaivotas que voavam sobre a esplanada, agora fechada, daquele café sobre a praia.

Era livre, vivia em contacto com o mar, com a natureza. Estaria concerteza mais perto de Deus.

Não tinha nada a provar, seria feliz com uma vida dura mas simples.

Ficou feliz por saber que há gente que é livre, que não tem provas a dar, com corpo e alma para defrontar o violento mar, enquanto a si, de corpo doente e cansado, tudo exigiam. Uma imagem, uma postura, uma impossibilidade de amar e de apreciar as coisas simples da vida.

Sentiu inveja, uma inveja saudável daquele homem que parecia feliz, que disfrutava de uma vida simples sem pretensões, sem imagens e com amor.

Sentiu-se só, de alma vazia.

Por isso chorava.