domingo, 20 de abril de 2008

O vulto na janela

Olhava aquele vulto pela janela.
Com a bruma que vinha do mar naquela tarde de plúmbeos céus, não conseguia distinguir as feições.
Estava sentado a uma mesa. Só. Uma mesa encostada à vidraça daquele café sobre o mar.
A humidade daquele mar tormentoso, o ligeiro embaciamento do vidro mostrando que a temperatura ali dentro era bem superior à do vento frio que soprava do norte, davam uma opacidade mágica ao vidro, que tornava o seu interior mais confortável e acolhedor do que o seu barco atracado na praia.
Olhava aquele vulto sentado junto à janela. Não podia aperceber-se do que estava pousado na mesa. Um café quente, uma água refrescante, um simples sumo de laranja ou um exótico sumo de frutos raros. Podia ser ainda um sensual copo de vinho tinto.
Não sabia se era homem ou mulher, novo ou velho. Era adulto, sim, tinha a estatura e postura de adulto.
Parecia-lhe feliz. Um vulto afortunado que numa tarde invernosa relaxava com uma bebida num café sobre o mar. Enquanto ele, ele atracava o barco na praia, ao sabor do frio e do vento de norte no meio das tão famosas brumas que o Atlântico empresta, por vezes, ao final da tarde.
Ficou feliz por saber que há gente que pode passar uma tarde no café sobre o mar enquanto ele ganha a vida, arriscando-a naquele pequeno barco, agora atracado na praia.
Sentiu inveja, uma inveja saudável daquele vulto, que parecia feliz e confortável, que disfrutava de uma bebida numa janela sobre o mar.
Só não sabia que esse vulto chorava.

domingo, 13 de abril de 2008

O homem que pensava ser bom


Era o senhor do mundo. Do seu mundo. Homem pequeno, voz, metálica, mas com poder. Conseguira tornar o seu país auto-suficiente. Tinha tornado o seu país num país de gente culta.Sim, dera cultura, educação, saúde a todos. Era bom.

Decidiu mostrar a sua grandeza ao mundo. Construiu palácios e com eles criava emprego. Um palácio da ciência onde cientistas investigavam com os recursos dignos dos países mais desenvolvidos, o palácio da imprensa, o palácio do povo de onde governava e teimava em receber todo e qualquer cidadão que de algo precisasse.

Tinha terminado com o crime na capital e controlado os nómadas que teimavam em ocupar os terrenos baldios à volta da cidade.

Fizera reviver o teatro, a ópera, abrira bibliotecas, construira caminhos de ferro e estradas e dotara os centros urbanos dos mais avançados meios de comunicação.

Um dia, sem saber por quê, os estudantes revoltaram-se na segunda cidade do seu pequeno mundo. Logo a manifestação se estendeu à capital.

Diante do seu palácio, milhares gritavam palavras de ordem, sob o rigoroso Inverno do seu país.
Houve sangue, muito.

Era dia de Natal. O incompreendido senhor do mundo, que dera a glória ao seu país, era perseguido por aqueles a quem dera cultura e educação.

Com a mulher, mete-se num helicóptero para escapar da fúria do país que construira com muita dedicação. Detiveram-no. Tratavam-no como a um animal. Queria saber porquê.

No meio da confusão, dos ânimos exaltados, dos gritos, distingue uma frase: “Que Deus nunca lhes perdoe.”

Segue-se um estrondo e sente uma dor aguda no peito. Cai ao chão e vê o seu mundo, a sua gente, desvanecer à sua frente.