domingo, 16 de março de 2008

Cores Proibidas

Mudara muito com o tempo. Em dezasseis anos deixara de ser a criança extrovertida, comunicativa, alegre e curiosa que sempre fora.

Agora, já adolescente, com as mudanças do corpo, não se tornara introvertido. Talvez introspectivo.

As hormonas, essas que haviam explodido tão violentamente, traziam desejos desconhecidos, desconfortáveis. Exigências de mudança, não só do corpo mas da alma, da moralidade, dos preconceitos.

Já mais velho, quando revia essa fase, perguntava-se porque é que uma criança, sim, porque aos dezasseis anos ainda era uma criança, tinha de passar pela violência física e psicológica que é a adolescência.

Aprendia a viver com o novo corpo, com os novos desejos, ganhava preocupações, e as dores e angústias dos outros não desapareciam em cinco minutos como quando era menino. O menino que vivia num constante estado de alegria, de brincadeira, salpicado aqui e ali por curtos momentos de tristeza, dera lugar a uma angústia que aprendia a viver consigo e procurava nos excessos a alegria e serenidade de quando era criança.

Tinha medo do corpo, do novo corpo, e dos desejos proibidos. Tanto medo que actuava como se nada se passasse.

Continuava o menino exemplar que não queria ser e essa mentira para si e para os outros aumentava a angústia que consumia as entranhas.

Mas sozinho, à noite, na solidão de uma cama vazia, num quarto às escuras, libertava os pensamentos e deixava o mundo pintar-se de todas as cores, mesmo daquelas que estavam proibidas.

Sentia-se ao mesmo tempo mais verdadeiro consigo, mas com mais medo de si.

Não queria mudar, não queria estas mudanças.
Queria ser o que não podia ser e não queria ser o que era mas queria poder ser o que era e não podia ser.
E enquanto as hormonas faziam o seu trabalho, o rapaz exemplar consumia-se nesta batalha do querer, do ser e do poder ser.
E quando fechava os olhos, cansado do esmagamento da alma pela luta entre desejo, moral e imagem, depois de sentir a ferida aberta de um peito cheio de nada ou vazio de tudo, de sentir o aperto no esterno e nas costelas que teimavam em encarcerar os temores, via um mundo de todas as cores, mesmo das cores proibidas, porque para se ir do preto até ao branco tem-se de passar pela mais completa paleta de cores. E o mundo vale a pena porque não há uma cor igual a outra, mas combinando todas o negro se torna branco.
E mais tarde, só muito mais tarde, descobriu a razão de um mundo cinzento.Porque muitos não venceram os medos da adolescência, porque muitos os esconderam e enterraram, porque muitos têm medo de permitir todas as cores, porque enquanto houver cores proibidas, não haverá branco.


5 comentários:

geocrusoe disse...

O problema é que o mundo continua a proibir muitas cores e muitos meninos nunca superam essa proibição, sentem-se daltónicos forçados num mundo que inconciente ou maldosamente os amordaça. Por isso este menino está de parabéns.

Melões Melodia disse...

Geocrusoe - Esta questao das cores, e tao, mas tao elaborada... e muito dificil sair-se de uma zona de conforto e salatr para o "desconhecido", ainda que se seja condenado a ficar num mundo cinzento.
Um abraco

disse...

Que cantinho tão aconchegante! E sabes que mais?! Ontem começei a escrever um texto cujo mote é o cinzento... a côr favorita de alguém que surgiu na minha vida completamente inesperadamente, mas nesta história o cinzento é quante, doce e macio. E sabe bem:)
Continua, q venho cá ler!
B

disse...

Ai! o meu post ficou uma treta, está cheio de calinadas! sorry!

AEnima disse...

Só agora li este post... nem me tinha apercebido que até usaste esta música também... esteve um mês na minha cabeça, todo o fevereiro... até bem recentemente. O meu amor não tem "cores proibidas"... mas essa metáfora leva para mim um sentido diferente... apaixono-me pelos frutos proibidos sempre, que me fazem sofrer e nunca me compreendem... e nunca poderão ser meus... Nunca. Estou a ultrapassar mais uma paixão impossível, proibido, a muito custo.