quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A Prenda

Primeiro Aniversário.
Uma relação sólida, apaixonada, cheia de surpresas. Um ano de descoberta do amor, o amor com que sempre tinha sonhado mas nunca tido.
Nunca ousara pensar que desse primeiro encontro num sítio obscuro e inominável, iria nascer uma relação tão perfeita.
Recebera instruções. Preparar a mala para dois dias. Não sabia nada mais.
Toca o telefone. É ele. Diz: “Está às treze no largo da Igreja em frente ao hospital”. Desliga.
A excitação aumenta.
Chega muito antes da hora. Espera ansiosamente. Pára um carro. Lá dentro um amigo. Diz: “Entra!”
Entra sem medo e recebe um primeiro envelope com instruções.
Primeira paragem na gelataria preferida. Gelado pago e outo envelope. Pastelaria favorita com o doce de eleição numa mesa, outro envelope e a loja de roupa, segue-se um disco há muito querido, um livro...
Percorre a cidade pontilhando todos os seus lugares favoritos.
Como foi possível, no espaço de um ano, ter-se dado a conhecer tão bem?
Segue com o amigo. Cruza a ponte e vê atrás de si a cidade majestosa e ainda mais romântica sob o quente sol de Verão. Segue caminho e é deixado à porta do hotel em frente ao mar com um outro envelope nas mãos. Entra, entrega o envelope e dão-lhe a chave do quarto.
Sobe. Quando abre a porta, o quarto está coberto com as suas flores favoritas. Amarelas, simples, frescas como se tivessem sido acabadas de colher.
Está feliz!
Em cima da cama, uma caixa. Uma caixa cheia de papéis. Entre eles um pequeno envelope.
Abre-o, curioso, feliz e apaixonado.
Lá dentro, uma pequena placa de ouro. De um lado a data, do outro “AMO-TE!”
Espera o resto da tarde e com o pôr do Sol, chega o seu amor.
Alimentada a paixão atira-se a um longo beijo. Deitam-se abraçados no fogo dos apaixonados.
Abraçam-se, beijam-se, deixam passear as mãos pelos corpos ainda vestidos.
Mas nota uma distância, um brilho diferente no olhar daquele que ama. Um fugir de não sei quê.
Não entende.
Tanto tempo à espera daquele dia.
É afastado, empurrado para fora da cama.
Não entende.
Não consegue ler o brilho no olhar. A tristeza que lê neles, o olhar do amor que não é correspondido, mas que era ardentemente correspondido.
Ouve então: “Tenho de te dizer uma coisa...”
Assusta-se, não entende.
“Sou seropositivo”
Abraça-o e diz-lhe que o ama, que cuidará dele, sabendo no entanto que está condenado.

14 comentários:

geocrusoe disse...

bem, só agora descobri este lado do músico guerreiro... ainda nem li o seu conteúdo, mas vou iniciar por estes dias a exploração... um abraço

Paulo disse...

Este post é uma pedra no meu charco!
A evolução decorre com tanto entusiasmo que levei um murro no estômago. No fim, parece-me que há condenações piores do que amar e cuidar. Quanto à outra condenação, parece-me ainda que existem bem piores.

Melões Melodia disse...

Geocrusoe - este e um lado mais da ficcao, se bem que muitas vezes (como neste caso) reflectem vidas reais.
Abraco

Paulo - pois, esta historia nao acaba aqui, e provavelmente a condenacao de que falo nao e a mais evidente. Desculpa ter-te feito ler esta historia no dia de hoje. Nao queria, por nada deste mundo, atirar uma pedra ao teu charco.
Abraco

Paulo disse...

Não te preocupes, eu lia-a ontem, mas a reacção foi em diferido :) (falta de tempo, para reagir em directo)
e não sabia que tinha continuação
(e fiquei mais aliviado com o teu comentário)

Anónimo disse...

Acho que o meio termo nestas coisas de amor é sempre o melhor,quando a felicidade é muita fico na dúvida daquilo que me vai aparecer pela frente que é o caso Gostei muito desta prenda, amor é mesmo assim, e só amamos desta maneira uma única vez,e nunca mais se apaga da nossa memória o que é cruel,é como uma vacina para amores futuros.Estou em pulgas para ler a continuação.Beijinhos da FIFI

Melões Melodia disse...

Paulo - melhor assim. As historias nem sempre tem caminhos ao sol. o que interessa e que chegeuem a bom porto.
Abraco.

FiFi - nao sei se o amor tem meio termo. Ou se ama ou nao se ama. Pode ser mais ou menos apaixonado e paixao nao e amor. o problema e que muitas vezes se confunde paixao com amor e e bom quando os dois se juntam... e se um acaba acreditar que se pode sentir assim outra vez. Sabes, nao acredito na frase "nao ha amor como o primeiro"
mas continuara a historia.
beijos

Diabba disse...

Eu teria cometido um crime!

beijo d'enxofre

Melões Melodia disse...

Diabba - que crime?
Beij0s

Diabba disse...

Homicídio.

Beijo

Melões Melodia disse...

Diabba - e assim acabava a historia. Um morto e o outro na prisao! Nao pode ser.
Beijos

Anónimo disse...

A verdade é que a paixão faz de nós uns loucos,uns possessivos,uns ciúmentos, detesto,mas, sou exactamente como tu,fico fora de mim e nem acredito nas coisas que pratico,acho que deixo de ser eu para passar a outros eus,amor a meio termo faz de nós pessoas mais realistas,mais calmas,mas por vezes este diabo entra em conflito e zás a guerra começa e é terrivel.Nestas coisas temos que ceder e ser pacientes.Beijo da FIFI

Diabba disse...

É verdade.
Comigo há histórias que não chegam nem a duas páginas.

beijo d'enxofre

Melões Melodia disse...

FiFi - para mim, paixao e amor sao coisas diferentes, e o amor e para ser vivido a cem por cento, se possivel sem os rebates da paixao.
Beijo

Diabba - se o que vem depois na valer a pena concordo.
Beijos

AEnima disse...

Quando o coração é mesmo grande, os milagres acontecem.