domingo, 17 de fevereiro de 2008

O Menino Sem Nome


Chegava à escola cedo. Tinha uma ânsia de aprender. Via chegar os outros meninos, que não o viam, que não falavam com ele, com quem não brincava.


Entrava na sala de aulas assim que ouvia o toque mas esperava que os outros meninos se sentassem para tomar lugar numa secretária que ficasse vazia.


A professora começava a chamada e, um a um, todos os meninos diziam Presente. A professora fechava o livro de ponto depois de ouvir todos os meninos da sala dizer presente, depois de dizer nomes sem resposta, todos menos ele. Esperava ansiosamente um sinal para dizer Presente! Estou aqui! mas nunca ouvia chamar por si.


Em casa passava-se o mesmo. Ninguém chamava por ele, ninguém lhe falava. Por isso ficava na escola até mais tarde. Via as mães dos outros meninos, via as mães que os iam buscar. Assim que viam os seu filhos chamavam-nos pelos nomes que ouvia todas as manhãs durante a chamada na sala de aulas, ou por outros mais pessoais, mais carinhosos. Olhava para aquela mãe que dizia “Então filhote, como correu o dia?”; ou o pai “Olá princesa, desculpa, atrasei-me no escritório”; ou o irmão mais velho “ Ó fedelho, despacha-te”. Mesmo o homem apressado que nesse dia disse a outro menino “ Sai-me da frente, ó puto”.


Fechada a escola, noite caída, o menino caminhava até a casa onde ninguém o esperava, onde ninguém lhe preparara o jantar, ou fizera a cama, ou lavara a roupa.


Nos dias de testes, a professora distribuía-os por todos os meninos, mas passava por ele sem lhe deixar um exemplar. O menino não se importava, não saberia como assiná-lo.
Um dia, porém, depois da professora escrever no quadro “Composição”, o menino decidiu que a iria fazer.


Levantou-se, foi à mesa de outro menino, tirou-lhe uma folha de papel pautado e um lápis e começou a escrever. O tema era livre.


“Era uma vez um mundo. Nesse mundo há muitas coisas, coisas bonitas e coisas feias, mas coisas. Nesse mundo há vida. Há animais, há vegetais e há pessoas.
As pessoas são inteligentes e podem falar umas com as outras. Para poderem falar, inventaram uma coisa chamada linguagem e a linguagem é formada por palavras.

Para entenderem o que dizem, as pessoas deram nomes às coisas e tudo o que existe tem um nome.

Com o tempo as pessoas esqueceram-se que as coisas já existiam antes dos nomes, e não ao contrário. Mas nesse mundo das pessoas, os nomes passaram a ser mais importantes do que as coisas.
Há nomes melhores do que outros, e as pessoas começaram a dar mais valor às coisas com um nome melhor, porque as pessoas esqueceram-se de que os nomes encerram todas as coisas num significado fechado.E porque os nomes passaram a ser mais importantes do que as coisas, as pessoas limitaram o seu mundo às coisas com nome... e as coisas sem nome deixaram de existir.”

4 comentários:

Diabba disse...

Há muitos meninos/homens transparentes por aí, ninguém os vê nem ninguém os ouve.

Os homens precisam de ficar mais atentos.

beijos d'enxofre

Melões Melodia disse...

Diabba - sim e tem que dar menos valor aos nomes.
Beijos

geocrusoe disse...

Com esta afirmação no final do conto e o teu comentário acima fiquei mesmo baralhado... tendo em conta que, na película conheço as personagens, no teatro ou no cinema sei quem são os rostos (ou as pessoas?), no serviço quem trabalha no gabinete ao fundo - até lhes dou bom dia, converso e ouço os seus desabafos; o meu problema é que desconheço os nomes e quase todos sabem dessa minha lacuna. Depois a confusão de não identificar de quem falam, a beldade que é cabeça de cartaz... mas para mim eles existem e às vezes são causa de admiração.

Melões Melodia disse...

eocrusoe - entao, conheces o que interessa... as pessoas e nao os nomes, e quando digo os nomes, nao digo os nomes proprios... e mais nao digo, que o texto e para cada um entender como bem quiser. Eu pus-lhe um sentido, tu provavelmente das-lhe outro, nao sei, mas pelo que contas, nao me referia a ti quando falava desse mundo em que as coisas sem nome deixaram de existir.
Abraco