sábado, 26 de janeiro de 2008

A Porta

Do lat. porta-, «id.»
s.f.
1. abertura em geral rectangular, feita numa parede ao nível do pavimento, para permitir a entrada ou saída; 2. peça que fecha essa abertura; 3. peça ou estrutura que permite o acesso ao interior de algo (carro, móvel, cofre, etc.); 4. entrada; acesso; 5. passagem estreita; desfiladeiro; garganta; 6. admissão; 7. solução; expediente;

A porta estava fechada.

Na pequena sala, entrava uma luz coada pela janela também fechada.

Apesar do ambiente sujo e bafiento, ele sentia-se bem naquela sala. Conhecia bem cada um dos seus cantos: o verde velho do sofá já coçado pelos anos e queimado pela luz; as marcas do caruncho na madeira do soalho; o cheiro bafiento dos velhos e carcomidos livros perdidos na estante húmida ao lado da porta; a sólida mesa de carvalho que vira passar a geração dos seus avós e a dos avós dos seus avós; conhecia até as manchas do bolor que apareciam e se multiplicavam no tecto, fruto de anos de porta e janelas fechadas.

Desde que ficara ali, só, estudara a sala ao milímetro e sempre se questionara sobre o que havia para lá daquela porta fechada.

Já muitos anos haviam passado desde que a cruzara pela última vez e não se lembrava do que havia para lá da porta fechada.

Ali, naquela sala, não estava triste, tão pouco estaria contente, estava abandonado ao conforto dos cobardes, ao desinteresse dos mediocres, ao bem estar dos ignorantes.

Um dia, sem saber porquê, levantou-se do sofá e pôs-se à frente da porta. Tentava escutar o que se passava do outro lado e adivinhar o que se passaria nesse outro lado esquecido, mas como vivia há muito tempo fechado naquela sala, os uivos do vento pareciam-lhe fantasmas. Cada som era uma ameaça porque não sabia o que era realmente.

Enquanto o medo o fazia encolher encostado àquela porta, a curiosidade invadia-o.

Com o passar do tempo viu a sala tornar-se pequena e o que era até então a sua fortaleza, a muralha que o defendia dos fantasmas que habitavam para lá da porta, passou a ser o seu cárcere, e a porta fechada o seu carcereiro.

Então, com um inexplicável impulso, abre a porta e sai!


Publicado aqui a 4 de Julho de 2007