segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O telefonema



O café arrefece na mesa. Ao seu lado o telemóvel. Olha impacientemente para o telemóvel que costuma guardar no bolso das calças.
Mas é um dia importante. O dia em que poderá voltar a sonhar. Tudo depende do telemóvel que jaz na mesa ao lado do café já frio.
As outras mesas vão-se ocupando e desocupando com executivos apressados.
Não tem pressa. Olha fixamente o telemóvel que jaz na mesa ao lado do café já frio.
Começa a tocar. Tem medo de atender. Nervosamente, pega no telemóvel e espera mais dois toques. Não sabe o que fazer.
Atende sem ver quem é.
Ouve uma voz amiga. A voz de uma mulher. Tarda em realizar quem está do outro lado.
“-Já sabes alguma coisa?”
Desiludido, porque é a sua melhor amiga, reponde que não. E sem se despedir, desliga o telemóvel e pousa-o na mesa ao lado do café já frio.
As outras mesas vão-se ocupando e desocupando com executivos apressados.
Não tem pressa. Olha fixamente o telemóvel que jaz na mesa ao lado do café já frio.
Começa a tocar. Tem medo de atender. Nervosamente, pega no telemóvel e espera mais dois toques. Não sabe o que fazer.
Atende sem ver quem é.
Ouve uma voz amiga. A voz de um homem. Tarda em realizar quem está do outro lado.
“-Estou!”
“-Viva!”
“-És tu?”
“-Sim.”
“-Podes confirmar o teu número clínico?”
“-Um, Um, Nove, Nove, Quatro, Três. Como está Doutor?”
“-Bem, obrigado. Tu como estás?”
“-É o que eu quero que me diga.”
“-Estás preparado? Não é fácil o que tenho para dizer-te...”
“-Sim...”
“-Chegaram os resultados das análises. É a terceira amostra e repetímos três vezes para ter a certeza...”
“-Sim...”
“-É difícil. Custa-me dizê-lo...”
“-Nada pode piorar, Doutor. Estou preparado.”
“-Parabéns rapaz. Não detectámos nada. Parabéns!”
Não diz nada. Fica em silêncio. Consegue-se arrancar um inaudível “Obrigado” e termina a conversa.
Pousa o telemóvel na mesa ao lado do café já frio.
Vê a vida passar à sua frente. Sempre havia ouvido que a vida passa à frente dos que morrem, não dos que nascem. Vê a vida passar à sua frente. Não consegue sentir. Vê a vida passar à sua frente enquanto olha para o telemóvel que jaz na mesa ao lado do café já frio.
As outras mesas vão-se ocupando e desocupando com executivos apressados.
Não tem pressa. Olha fixamente o telemóvel que jaz na mesa ao lado do café já frio.
Vê a vida passar à sua frente. Sempre havia ouvido que a vida passa à frente dos que morrem, não dos que nascem. Vê a vida passar à sua frente.
Não consegue sentir.

7 comentários:

Ck in UK disse...

Primas
e a primeira vez q ouco a descricao desse tal dia....

Melões Melodia disse...

Pois foste a primeira sim, senhora!
Sim, e foi assim.
Beijos

Diabba disse...

Ok. confesso que não li uma linha, estou só a assegurar a medalha de prata!! Uma vez a de ouro já tem dona, e tu não contas.

E agora vou ali rogar a praga da queda dos dentes da frente à CK, já volto. Grunfff

beijo enxofrado

Teresa disse...

Vê a vida passar à sua frente. Sempre havia ouvido que a vida passa à frente dos que morrem, não dos que nascem.

Bravo!

Um GRANDE beijo.

Melões Melodia disse...

Diabba - Pois esse foi o castigo da medalha. Viseste sem tempo para ler, olha, nao ha medalha. Nicles.
Agora ve la se lhe rogas a praga depois do casorio, mas olha que sem dentes pode facilitar a outras coisas. ;-)
Beijos

Teresa - Mas afinal a vida esta aberta a frente dos que nascem, nao e?
beijo grande.

Diabba disse...

Dá lá os parabéns ao rapaz, agora tem um futuro de cafés quentinhos pela frente.

beijos d'enxofre

Poz_feliz disse...

:)que sorte :)