sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Era uma vez...


Era uma vez (porque as histórias deveriam começar sempre por era uma vez), então, como dizia eu, era uma vez, porque o tempo não interessa, passado, presente, futuro, se foi, é ou será não é o que interessa, o que interessa é que era já que era não fecha o tempo a um momento mas deixa-o aberto, e uma vez porque essa vez em que o tempo é irrelevante é única e pontual, porque há acção e cada uma acontece uma vez em dado tempo e nunca se repete. Mas como dizia eu...

Era uma vez um homem (podia ser uma mulher, o género não interessa, ou uma criança ou um velho, mas a idade, também essa pouco importa). Ou seja, era uma vez um homem que nesse momento não estava feliz nem infeliz, não tinha grandes problemas nem grandes alegrias, já as tivera, mas não nesse momento, e seguramente iria ter mais no futuro, quer tristezas, quer alegrias. Não era rico nem mendigava. Tinha amigos, família, pessoas de quem gostava menos e mais, pessoas a quem amava ou a quem não dava grande importância. Tinha o necessário para viver sem grandes luxos ou grandes apertos.

Diríamos então era uma vez um homem sem muito para contar e uma vida mediocre (no sentido de nada relevante se passar).

Então porque perco tempo a contar a história de alguém que não tem nada para contar e sobre um dia como a maioria dos dias?

Isto é o que o homem se perguntava. Então entra a acção e a história passa a ser história porque há verbo. Já não é uma descrição. O homem perguntava-se porque é que a sua história é uma história e ao fazê-lo transforma-a. Poder-se-ia perguntar mais vezes e então deixaria de ser uma vez e passaria a ser duas, ou três, ou mais, a monotonia tiraria o interessa à história já que nesse momento da sua vida não há nada de relevante para contar.

E deu-se conta que afinal havia algo de importante para contar. Deu-se conta de que pela primeira vez se perguntou porque é que aquele ponto da sua vida merecia uma palavras num papel, quando passava uma fase monótona e aparentemente igual a tantas outras, descobrindo que essa história se faz unindo esses pequenos pontos uns atrás dos outros até aparecer uma história onde os golpes da sorte (ou do azar) nada mais são do que os condimentos que dão sabor ao prato principal.

Dera-se conta nesse momento e nessa vez e não haveria outra igual, por isso começara com “Era uma vez”.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A Diva


Abre o armário onde guarda os vestidos dos seus concertos, entra e viaja pelo mundo, Lisboa, Londres, Paris, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Sidney, Tóquio, Amesterdão, Cidade do Cabo, Munique, Toronto, Buenos Aires,...

Pousa as mãos estragadas pela idade, pelas noites mal dormidas, pelos excessos, nas sedas, nas rendas e cetins, nos veludos que guardam ecos de auditórios cheios, aplausos calorosos e aromas idos; cada um guarda uma história de amor, uma entrega, uma paixão; paixão pelo público, pela música.

Pára no vestido negro, vê o grande teatro da capital a transbordar de gente que grita o seu nome, honras de Estado que celebram sessenta anos de carreira, sobre o vestido repousa a medalha de ouro de mérito cultural que a fizera embaixadora da cultura da pátria que um dia a amara.

Olhando o vestido, afagando o brilho da medalha nas suas mãos, sente-se traída, abandonada.

Desde o dia em que o vestira, não ouvira mais palmas, deixara de escutar o seu nome, como as dezenas de homens a quem se entregou de corpo e alma, sempre com o mesmo fogo, também o seu público, o seu grande amor a quem um dia dera tudo, a abandora.

Sente-se traída, a mesma dor do abandono, das paixões, dos homens que saciaram os seus desejos com a sua fama e a sua riqueza. Sente-se utilizada mais ma vez, aquela medalha é a prova disso, é o ramo de rosas vermelhas do homem que faz o sacrifício de dormir com ela para aceder ao seu dinheiro, é um país que se prostitui e utiliza aquela a quem chamou puta, aquela que a ele se entrega, para se promover nos quatro cantos do mundo.

Entretanto, esquecida e só, sente falta do calor do público, de ouvir a sua voz na rádio e na televisão, enquanto o vestido negro repousa no seu regaço e se ri dela.

Apesar dos seus quase oitenta anos sente as dores da traição e do abandono como na sua juventude.

Nesse fogo de dor e angústia, sai com o vestido negro entre os dedos enrugados e vai em busca de uma tesoura. O vestido ri-se dela cada vez mais alto, em gargalhadas de escárnio e nas palmas que ecoam e sobem de tom.

Palmas, não pode viver sem elas, não pode viver sem o amor do público.

Encontra a tesoura grande, senta-se na cama e prepara-se para cortar o vestido, fazê-lo em pedaços tantos como as palmas que com ele recebeu. O vestido guarda as memórias, as palmas que quer ouvir, não pode viver sem elas. Empunha a tesoura, vestido no colo, espeta-a no coração.

No dia seguinte a sua voz faz-se ouvir na rádio e na televisão, os seus discos voltam a vender para lucro daqueles que sempre se souberam aproveitar da sua entrega, enquanto uma multidão chora e aplaude a grande diva pela última vez.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Bordel


Havia ficado deslumbrado, no Teatro Colonial, na praça Central da cidade, de ver os homens baterem-se pelo sexo das mulheres, içarem-se dos seus assentos em tracção sobre os seus braços, depois golpearem os seus colegas ou velhos amigos íntimos que ignoravam, perto da passerelle onde elas desfilavam num pincel de luz, não perdendo de vista a cabeça escolhida para a colar às coxas afastadas, e eu assisto à distância num desses bancos de madeira, aterrorizado e atordido, encolhendo-me e incrustrando-me nesse banco à medida do desenrolar do espectáculo, o mais primário e mais triste do mundo, essa comunhão dos homens com o tosão das mulheres, esse impulso juvenil mesmo dos mais velhos para o atingir, eu bebia-lhes dos olhos os corações que batiam, quase desaparecendo sob o meu assento com medo de ser eleito por uma das strippers, pois forrar o meu focinho no seu triângulo era desvanecer-me definitivamente do mundo, e aí perder a minha cabeça para sempre, a desfolhadora avançava na minha direcção desafiando-me, chegava-se cada vez mais perto, mostrando o meu esforço como um elemento cómico ao riso dos outros jovens, prestes a acocorar-se em frente à minha cara e agarrar a minha cabeça encaracolada, a única loura entre toda a assistência, e maltratá-la até que os meus lábios se entreabrissem para honrar a fenda, e beber da sede dos jovens homens que aí se tinham saciado, mas de um só golpe as luzes se acenderam, a mulher surpreendida estremesse, atira o robe sobre uma cadeira e foge, e os obreiros escapam-se como bestas, a golpes de assobio ou mesmo de chicote, os jovens homens sequiosos ou saciados, que haviam perdido o seu entusiasmo num relâmpago como uma ilusão de óptica, uma ilusão de sombra, à luz onde eles se revelavam trabalhadores casados, de fatos descorados e mesquinhos, que tinham escondido a sua mulher na cadeira ao lado deles.

terça-feira, 10 de junho de 2008

A serenata



Fecha a porta com estrondo e avança destemido a passos largos sob a chuva copiosa.

As palavras que proferira momentos antes ressoam-lhe na cabeça. A violência das palavras toma forma e entranha-se, provocando o coração que se havia fechado, abrindo-o num latir violento e descompassado.

Acelera o passo sem olhar para trás. Não quer olhar para as janelas que escondem um amor despedaçado.

Decide virar à esquerda, já que a rotina o fazia ir em frente ou virar à direita. Assim, virando à esquerda, segue, rumo ao desconhecido, fazendo com que o passado se torne realmente passado.

Quer descobrir coisas novas que lhe desviem a mente das palavras que proferira, do sofrimento que deixara do lado de lá das janelas da casa de onde acabara de sair.

Mas as palavras ecoam e os seus olhos abrem-se num mar de lágrimas. Não é um choro convulsivo, são lágrimas que simplesmente deslizam pelo seu rosto molhado pela chuva, como se os olhos se tivessem enchido de palavras e não as pudessem conter.

Quem o vê não sabe que chora. As lágrimas misturam-se com a chuva que é tão violenta como as palavras que proferira minutos antes ao amor, agora despedaçado, que ainda se encontra do lado de lá da janela.


* * *

Sentado num café, vê um velho amigo.

"- Então pá, por onde tens andado?"
"- Por aí. E tu? Ainda só?"
"- É verdade, uma vez chegou!"

Conversa puxa conversa e o passado, o tal que se queria esquecido aparece de mansinho. O tal amor, o do lado de lá da janela regressara à cidade. “ – Queremos falar contigo.” – diz o seu velho grande amigo.

Os seus ouvidos recusam-se escutar a última frase.

“ – E como está? Passaram tantos anos...”

Mas, lentamente o cérebro vai decifrando a mensagem. “Queremos falar contigo” – e a frase já não lhe sai da cabeça. O coração aperta-se-lhe angustiado.

“ – Que queres dizer? Pensei que eras meu amigo.”
“ – Sempre o fui, Foste tu quem decidiu partir, quem nunca voltou atrás.”
E de repente o passado fez-se presente. “– De qualquer forma, amanhã celebramos uma nova vida em conjunto. A partir das cinco da tarde no registo civil da praça. Aparece!”


* * *

Está só no café.

“ – Amanhã às cinco” – pensa – “claro que não vou!”

Embriagado, sai. Está um dia como aquele em que saíra de casa depois de dizer palavras violentas que de novo ecoam na sua cabeça e apertam o coração.

Caminha à chuva, sente-se febril. Não sabe se é da chuva, do frio, do álcool ou do tabaco. Sente a roupa molhada numa mistura perfeita de suor e água da chuva.

Decide que não vai. Que desplante, aquele convite! Porque haveria de ir? Porque pensa tanto no passado?

“ – Mas porque não hei-de ir? É o meu melhor amigo, só provarei que o passado é passado.”

Chega a casa quando o negro do céu dá lugar a um cinza cumbo.

Sente-se cansado. Uma noite de chuva, álcool e tabaco deixara terríveis mazelas.

Não adormece de imediato. A febre, as dores de garganta não o deixam dormir e quando finalmente adormece, sonha com o seu melhor amigo e com o amor que um dia deixou do lado de lá da janela.

* * *

Abre os olhos. Está escuro lá fora. Olha para o relógio.

“ – Merda! Já são nove horas.”

Sabia onde era o registo, não a festa. Caminha apressado até ao registo civil que está fechado. Vazio.

Vai em direcção à casa que um dia deixara. A probabilidade de ser lá a festa é remota mas é a única referência que tem.

As luzes estão apagadas. Senta-se na soleira, perdido. Pára um táxi à porta e dele sai o vizinho da frente. Está velho e vem só sem a sua bela senhora. O preto da gravata diz que também o tempo acabara com o amor da sua vida.

Falam, recordam o passado, aquele que queria esquecer. E finalmente sabe onde é a festa. No hotel da avenida.

Despede-se do antigo vizinho, feliz com o encontro e dirige-se ao hotel da avenida.

Já não há festa. Sempre atrasado como que se o passado que um dia mandara embora, se tivesse ido por bem.

Senta-se n0 bar do hotel. Pede um copo para ver se alivia o seu estado febril, as dores do corpo, mas sobretudo as dores da alma.

Fala da festa com o empregado que o serve.

“– Grande festa! Devem ter muito dinheiro, imagine o senhor que ficaram na suite presidencial!”

Terminou rapidamente a bebida, pagou e saiu em direcção a casa. “– Se não me vêem, pelo menos ouvir-me-ão.”

* * *

A guitarra não tinha sido usada desde que batera com a porta da casa onde deixara do lado de lá da janela um amor despedaçado.

As cordas oxidadas ameaçavam partir ao primeiro acorde. O braço torto, a caixa empolada e o revestimento descolado.

Teria que conseguir. Sempre fizera serenatas que eram acolhidas com uma longa noite de carinhos e com um brilho especial no olhar.

Chega ao hotel, já o céu começa a clarear. Procura a janela da suite presidencial. Por baixo há uma floreira sobre a qual apoia a perna esquerda e nesta apoia a velha guitarra.

A guitarra aguenta os primeiros acordes enquanto a sua garganta estragada consegue emitir uma voz quente, profunda e doce.

Mas as cordas da guitarra começam a ceder àquele misto de bolero e bossa nova. Quando a última corda se parte, dá a volta à guitarra e usa a caixa mudada pelo tempo como percussão.

A sua voz enche a avenida na aurora daquele dia. Estragada pelo fumo, pelo álcool, pelas noites mal dormidas, também a voz acaba por ceder.

Olha para a janela e pensa “– Não me viu mas ouviu-me”.

Dirige-se a casa e ao passar à porta do hotel ouve o concierge dizer: “ – Era este o que fazia a serenata à suite presidencial, só que estes já devem estar a caminho das Maurícias.”

Enfia a guitarra sem cordas no saco.

E aquele passado que um dia despedira tão violentamente, nunca estivera tão presente, sem, no entanto, não deixar de ser passado.

domingo, 25 de maio de 2008

Fronteira


“Que estranho” – pensava - “Mudam de pele todos os dias!”

Ainda se adaptava aos seus novos amigos.

Tinham-no acolhido depois do seu companheiro de longos anos ter sido levado num carro amarelo com luzes azuis.

Nesse dia ficara ali a olhar. Correu atrás do carro até à exaustão. Ninguém lhe ligava. Vagueou pela cidade e regressou ao parque onde vivia com o seu companheiro.

Outros homens, estes vestidos de azul escuro e não de branco como os que tinham levado o seu companheiro, removiam os seus haveres.
Deitou-se à sombra de uma árvore, triste, só.

Quem lhe iria fazer companhia? Quem iria dividir com ele a comida? Notou que tinha fome e foi à procura de comida.

Já sem forças, depois de percorrer meia cidade, vê um portão aberto. Espreita.

Do lado de lá, um jardim. Bem cuidado, relva verde acabada de cortar. Dá um passo.

“Ping, ping...” – ouve água. Sedento da caminhada, segue o som. Entra sem hesitar.

O jardim é belíssimo. Mais bem cuidado do que o parque onde vivia com o seu companheiro levado pelos homens de branco num carro amarelo e luzes azuis. Não entendia porque é que este jardim não estava cheio de gente como o parque, principalmente num dia de sol como aquele.

Bebe e, sem forças, à sombra do frondoso plátano sobre a relva verde recém cortada, deixa-se dormir.

Sonha com o seu companheiro e amigo desaparecido.

Desde as suas mais antigas memórias, quando outro carro levara a sua mãe, não se separara dele. Ouvia as suas longas histórias à noite no parque sob o calor da sua mão. Sonhava que o seu companheiro cantava ao som da guitarra com apenas quatro cordas. Ouvia-o rir-se dele, de si mesmo, dos que passavam.

Exploravam o parque e a cidade. Sem horas. Fugiam dos carros azuis de luzes azuis, como quem joga às escondidas. Brincavam, corriam e riam. Amigos fiéis. Companheiros eternos.

Acorda com o som do portão que se fecha. Vê quatro pessoas, dois adultos e duas crianças. Tenta esconder-se mas antes de chegar ao arbusto é visto.

Baixa a cabeça, olha para o chão como se tivesse sido apanhado a cometer o pior dos crimes.

“ – Meninos, já para dentro!” – disse o homem.
“ – Pai, parece tão triste e está tão magrinho...”
“ – Mas está sujo e pode estar doente, por isso lá para dentro!”
“ – Pai, tem fome, não o podes mandar embora assim...”

Ao ouvir a voz da criança, olha para ela. Levanta a cabeça e dá um passo. O seu olhar, no entanto, mostra uma enorme tristeza.

“ – Pai, deixa-o ficar, Queremos brincar com ele.”
“ – Sim pai, deixa lá, deixa, deixa!...”

A mãe esboça um sorriso.

“ – Vou preparar-lhe um banho e algo de comer. Tens fome não tens?”

Não se lembrava do seu último banho, ou se alguma vez tinha tomado um. Não gostou muito de entrar na água, mas aquela mão macia que o acariciava, a voz quente daquela senhora e a alegria constante daqueles meninos davam-lhe uma sensação de conforto e de carinho.

Deram-lhe comida. Comida só para ele. E muita. Daria para uma semana, talvez duas!

Duas semanas passaram. Agora dormia sob um tecto. Tinha comida todos os dias. Brincava com os meninos.

“ – Esta gente é estranha, boa mas estranha. Come a horas certas, saem de manhã cedo e só regressam ao fim da tarde. Não me deixam ir além do jardim e da cerca para explorar o que há do lado de lá. Sentam-se em frente à caixa das luzes e dos sons em vez de ir brincar e conhecer o mundo com os seus cheiros, os seus sons e as suas cores, como o fazia no parque” – sim, a caixa mágica tinha cores e sons, mas não tinha cheiros.

Olhava para eles. Observava-os. “ – Que estranho” – pensava – “Mudam de pele todos os dias!”

Estava grato a esta gente, a sua nova família, mas tinha saudades. Saudades do seu companheiro, de explorar o mundo, de não ter horas, de nunca estar só, de fugir dos carros azuis das luzes azuis como quem joga às escondidas, de ouvir histórias, de ouvir cantar.

Além de lhe mudarem os hábitos, mudaram-lhe o nome. Agora era Bobby. Antes era Mawgly, mas também a este se habituara.

sábado, 3 de maio de 2008

O outro lado da janela



Era o fim da tarde. Um fim de tarde de um complicado dia em que decidiu deixar o trabalho e foi até ao café envidraçado sobre a praia.

Sentou-se só junto à vidraça e pediu um chá. Um simples chá preto, sem açúcar, numa chávena embrulhada pelas mãos frias por causa do frio vento do norte que soprava lá fora e da bruma que se levantava.

Olhava o mar revolto que espelhava o céu chumbo que prenunciava a chegada da tempestade. Nesse mar distinguiu um barco que chegava à praia.

Atracou e um homem só, bravo homem, amarrava o barco com uma desenvoltura e energia que gostava de ter.

E ali estava aquele homem na praia, livre, sem medo.

Aquele homem seria como as gaivotas que voavam sobre a esplanada, agora fechada, daquele café sobre a praia.

Era livre, vivia em contacto com o mar, com a natureza. Estaria concerteza mais perto de Deus.

Não tinha nada a provar, seria feliz com uma vida dura mas simples.

Ficou feliz por saber que há gente que é livre, que não tem provas a dar, com corpo e alma para defrontar o violento mar, enquanto a si, de corpo doente e cansado, tudo exigiam. Uma imagem, uma postura, uma impossibilidade de amar e de apreciar as coisas simples da vida.

Sentiu inveja, uma inveja saudável daquele homem que parecia feliz, que disfrutava de uma vida simples sem pretensões, sem imagens e com amor.

Sentiu-se só, de alma vazia.

Por isso chorava.

domingo, 20 de abril de 2008

O vulto na janela

Olhava aquele vulto pela janela.
Com a bruma que vinha do mar naquela tarde de plúmbeos céus, não conseguia distinguir as feições.
Estava sentado a uma mesa. Só. Uma mesa encostada à vidraça daquele café sobre o mar.
A humidade daquele mar tormentoso, o ligeiro embaciamento do vidro mostrando que a temperatura ali dentro era bem superior à do vento frio que soprava do norte, davam uma opacidade mágica ao vidro, que tornava o seu interior mais confortável e acolhedor do que o seu barco atracado na praia.
Olhava aquele vulto sentado junto à janela. Não podia aperceber-se do que estava pousado na mesa. Um café quente, uma água refrescante, um simples sumo de laranja ou um exótico sumo de frutos raros. Podia ser ainda um sensual copo de vinho tinto.
Não sabia se era homem ou mulher, novo ou velho. Era adulto, sim, tinha a estatura e postura de adulto.
Parecia-lhe feliz. Um vulto afortunado que numa tarde invernosa relaxava com uma bebida num café sobre o mar. Enquanto ele, ele atracava o barco na praia, ao sabor do frio e do vento de norte no meio das tão famosas brumas que o Atlântico empresta, por vezes, ao final da tarde.
Ficou feliz por saber que há gente que pode passar uma tarde no café sobre o mar enquanto ele ganha a vida, arriscando-a naquele pequeno barco, agora atracado na praia.
Sentiu inveja, uma inveja saudável daquele vulto, que parecia feliz e confortável, que disfrutava de uma bebida numa janela sobre o mar.
Só não sabia que esse vulto chorava.

domingo, 13 de abril de 2008

O homem que pensava ser bom


Era o senhor do mundo. Do seu mundo. Homem pequeno, voz, metálica, mas com poder. Conseguira tornar o seu país auto-suficiente. Tinha tornado o seu país num país de gente culta.Sim, dera cultura, educação, saúde a todos. Era bom.

Decidiu mostrar a sua grandeza ao mundo. Construiu palácios e com eles criava emprego. Um palácio da ciência onde cientistas investigavam com os recursos dignos dos países mais desenvolvidos, o palácio da imprensa, o palácio do povo de onde governava e teimava em receber todo e qualquer cidadão que de algo precisasse.

Tinha terminado com o crime na capital e controlado os nómadas que teimavam em ocupar os terrenos baldios à volta da cidade.

Fizera reviver o teatro, a ópera, abrira bibliotecas, construira caminhos de ferro e estradas e dotara os centros urbanos dos mais avançados meios de comunicação.

Um dia, sem saber por quê, os estudantes revoltaram-se na segunda cidade do seu pequeno mundo. Logo a manifestação se estendeu à capital.

Diante do seu palácio, milhares gritavam palavras de ordem, sob o rigoroso Inverno do seu país.
Houve sangue, muito.

Era dia de Natal. O incompreendido senhor do mundo, que dera a glória ao seu país, era perseguido por aqueles a quem dera cultura e educação.

Com a mulher, mete-se num helicóptero para escapar da fúria do país que construira com muita dedicação. Detiveram-no. Tratavam-no como a um animal. Queria saber porquê.

No meio da confusão, dos ânimos exaltados, dos gritos, distingue uma frase: “Que Deus nunca lhes perdoe.”

Segue-se um estrondo e sente uma dor aguda no peito. Cai ao chão e vê o seu mundo, a sua gente, desvanecer à sua frente.

domingo, 16 de março de 2008

Cores Proibidas

Mudara muito com o tempo. Em dezasseis anos deixara de ser a criança extrovertida, comunicativa, alegre e curiosa que sempre fora.

Agora, já adolescente, com as mudanças do corpo, não se tornara introvertido. Talvez introspectivo.

As hormonas, essas que haviam explodido tão violentamente, traziam desejos desconhecidos, desconfortáveis. Exigências de mudança, não só do corpo mas da alma, da moralidade, dos preconceitos.

Já mais velho, quando revia essa fase, perguntava-se porque é que uma criança, sim, porque aos dezasseis anos ainda era uma criança, tinha de passar pela violência física e psicológica que é a adolescência.

Aprendia a viver com o novo corpo, com os novos desejos, ganhava preocupações, e as dores e angústias dos outros não desapareciam em cinco minutos como quando era menino. O menino que vivia num constante estado de alegria, de brincadeira, salpicado aqui e ali por curtos momentos de tristeza, dera lugar a uma angústia que aprendia a viver consigo e procurava nos excessos a alegria e serenidade de quando era criança.

Tinha medo do corpo, do novo corpo, e dos desejos proibidos. Tanto medo que actuava como se nada se passasse.

Continuava o menino exemplar que não queria ser e essa mentira para si e para os outros aumentava a angústia que consumia as entranhas.

Mas sozinho, à noite, na solidão de uma cama vazia, num quarto às escuras, libertava os pensamentos e deixava o mundo pintar-se de todas as cores, mesmo daquelas que estavam proibidas.

Sentia-se ao mesmo tempo mais verdadeiro consigo, mas com mais medo de si.

Não queria mudar, não queria estas mudanças.
Queria ser o que não podia ser e não queria ser o que era mas queria poder ser o que era e não podia ser.
E enquanto as hormonas faziam o seu trabalho, o rapaz exemplar consumia-se nesta batalha do querer, do ser e do poder ser.
E quando fechava os olhos, cansado do esmagamento da alma pela luta entre desejo, moral e imagem, depois de sentir a ferida aberta de um peito cheio de nada ou vazio de tudo, de sentir o aperto no esterno e nas costelas que teimavam em encarcerar os temores, via um mundo de todas as cores, mesmo das cores proibidas, porque para se ir do preto até ao branco tem-se de passar pela mais completa paleta de cores. E o mundo vale a pena porque não há uma cor igual a outra, mas combinando todas o negro se torna branco.
E mais tarde, só muito mais tarde, descobriu a razão de um mundo cinzento.Porque muitos não venceram os medos da adolescência, porque muitos os esconderam e enterraram, porque muitos têm medo de permitir todas as cores, porque enquanto houver cores proibidas, não haverá branco.


quinta-feira, 6 de março de 2008

O homem que quer sonhar

Olha em frente. Não vê nem ouve.



É um homem ainda jovem. Não é particularmente bonito, mas o nariz forte, as feições proeminentes e o olhar profundo dão-lhe um fascínio que vai para além da beleza física.

O seu olhar, mesmo parado, de quem olha sem ver, é desses olhares que atravessa a alma e devassa os sentimentos.
Muitos há que se amedrontam, outros assustam-se, outros, simplesmente, se fascinam com aquele olhar de mistério mas que, claramente, mostra que estamos perante um homem bom. Atormentado mas bom.
Tem a alma fechada, como fechados tem os sonhos, como que se protege das agruras da vida. Mas os olhos, esses, os olhos são a porta aberta para o coração, são a prova viva de que o jovem homem sonha e de que a alam sente.
E ali está, sentado na mesa do café da grande metrópole, com o seu caderno preto e um lápis. E escreve.
No meio da multidão, ele, o seu café, a sua água, um prato vazio de algo já comido. No meio da azáfama de um café num fim de tarde na grande metrópole.
E sente-se só, só e confortável. Protegido dos seus fantasmas, dos seus medos, ele e o seu bloco de notas, e uma enorme vontade de sonhar.
Vem-lhe uma música à cabeça, uma, composta para ele, para a sua voz. Lembra-se da letra, daquela letra tão bem escolhida pelo amigo que conseguiu ler os seus olhos. Da letra tão condizente com a hora do dia e com o estado da alma. Canta-a mentalmente.
“E eis que cai a noite, livra-me dos espíritos maus. Mas eis que surge a luz da tua graça pura, oh meu Deus! A quem devo seguir? De quem me devo esconder? Tu és a minha luz, só tu me podes salvar. Faz com que a noite se vá!”
Faz com que a noite se vá! A noite, não qualquer noite, mas a noite, a noite que se abate sobre a alma, que transforma as sombras em fantasmas e os uivos do vento em espíritos maus.
E o homem de olhar parado só vê a noite. Aquela que deveria ser para dormir, para poder sonhar, porque o homem quer sonhar.
As duras recordações do passado assaltam-no. Sente-se um fugitivo porque o homem foge de quem lhe quer dar a mão e ajudá-lo a sonhar.
E a história repete-se. O homem vagueia na cidade e olha sem ver. Pensamentos perdidos.
Olha os incógnitos à sua volta, almas anónimas, todas com uma história, uma alma, um olhar. Mas nos sorrisos dos outros vê os sonhos que queria ter.
Esquece-se que ele também sorriu. Como sorriu ao porteiro quando saiu de casa, ou ao empregado do café que o serviu. E dá-se conta de que todos os sorrisos escondem fantasmas.
Pensa no seu olhar, no olhar profundo naquele rosto de feições fortes. No olhar que atravessa a alma e deseja sonhar.
E sorri. Acaba a água, encolhe os ombros. Sorri outra vez, acaba as suas notas. Sabe que depois de fechar o seu caderno preto, onde guarda as emoções, vagueará pela cidade, verá tudo o que é bonito, olhar e pensamentos perdidos, para que de noite, na verdadeira, não na noite da alma, possa sonhar.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O Menino Sem Nome


Chegava à escola cedo. Tinha uma ânsia de aprender. Via chegar os outros meninos, que não o viam, que não falavam com ele, com quem não brincava.


Entrava na sala de aulas assim que ouvia o toque mas esperava que os outros meninos se sentassem para tomar lugar numa secretária que ficasse vazia.


A professora começava a chamada e, um a um, todos os meninos diziam Presente. A professora fechava o livro de ponto depois de ouvir todos os meninos da sala dizer presente, depois de dizer nomes sem resposta, todos menos ele. Esperava ansiosamente um sinal para dizer Presente! Estou aqui! mas nunca ouvia chamar por si.


Em casa passava-se o mesmo. Ninguém chamava por ele, ninguém lhe falava. Por isso ficava na escola até mais tarde. Via as mães dos outros meninos, via as mães que os iam buscar. Assim que viam os seu filhos chamavam-nos pelos nomes que ouvia todas as manhãs durante a chamada na sala de aulas, ou por outros mais pessoais, mais carinhosos. Olhava para aquela mãe que dizia “Então filhote, como correu o dia?”; ou o pai “Olá princesa, desculpa, atrasei-me no escritório”; ou o irmão mais velho “ Ó fedelho, despacha-te”. Mesmo o homem apressado que nesse dia disse a outro menino “ Sai-me da frente, ó puto”.


Fechada a escola, noite caída, o menino caminhava até a casa onde ninguém o esperava, onde ninguém lhe preparara o jantar, ou fizera a cama, ou lavara a roupa.


Nos dias de testes, a professora distribuía-os por todos os meninos, mas passava por ele sem lhe deixar um exemplar. O menino não se importava, não saberia como assiná-lo.
Um dia, porém, depois da professora escrever no quadro “Composição”, o menino decidiu que a iria fazer.


Levantou-se, foi à mesa de outro menino, tirou-lhe uma folha de papel pautado e um lápis e começou a escrever. O tema era livre.


“Era uma vez um mundo. Nesse mundo há muitas coisas, coisas bonitas e coisas feias, mas coisas. Nesse mundo há vida. Há animais, há vegetais e há pessoas.
As pessoas são inteligentes e podem falar umas com as outras. Para poderem falar, inventaram uma coisa chamada linguagem e a linguagem é formada por palavras.

Para entenderem o que dizem, as pessoas deram nomes às coisas e tudo o que existe tem um nome.

Com o tempo as pessoas esqueceram-se que as coisas já existiam antes dos nomes, e não ao contrário. Mas nesse mundo das pessoas, os nomes passaram a ser mais importantes do que as coisas.
Há nomes melhores do que outros, e as pessoas começaram a dar mais valor às coisas com um nome melhor, porque as pessoas esqueceram-se de que os nomes encerram todas as coisas num significado fechado.E porque os nomes passaram a ser mais importantes do que as coisas, as pessoas limitaram o seu mundo às coisas com nome... e as coisas sem nome deixaram de existir.”

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A Prenda

Primeiro Aniversário.
Uma relação sólida, apaixonada, cheia de surpresas. Um ano de descoberta do amor, o amor com que sempre tinha sonhado mas nunca tido.
Nunca ousara pensar que desse primeiro encontro num sítio obscuro e inominável, iria nascer uma relação tão perfeita.
Recebera instruções. Preparar a mala para dois dias. Não sabia nada mais.
Toca o telefone. É ele. Diz: “Está às treze no largo da Igreja em frente ao hospital”. Desliga.
A excitação aumenta.
Chega muito antes da hora. Espera ansiosamente. Pára um carro. Lá dentro um amigo. Diz: “Entra!”
Entra sem medo e recebe um primeiro envelope com instruções.
Primeira paragem na gelataria preferida. Gelado pago e outo envelope. Pastelaria favorita com o doce de eleição numa mesa, outro envelope e a loja de roupa, segue-se um disco há muito querido, um livro...
Percorre a cidade pontilhando todos os seus lugares favoritos.
Como foi possível, no espaço de um ano, ter-se dado a conhecer tão bem?
Segue com o amigo. Cruza a ponte e vê atrás de si a cidade majestosa e ainda mais romântica sob o quente sol de Verão. Segue caminho e é deixado à porta do hotel em frente ao mar com um outro envelope nas mãos. Entra, entrega o envelope e dão-lhe a chave do quarto.
Sobe. Quando abre a porta, o quarto está coberto com as suas flores favoritas. Amarelas, simples, frescas como se tivessem sido acabadas de colher.
Está feliz!
Em cima da cama, uma caixa. Uma caixa cheia de papéis. Entre eles um pequeno envelope.
Abre-o, curioso, feliz e apaixonado.
Lá dentro, uma pequena placa de ouro. De um lado a data, do outro “AMO-TE!”
Espera o resto da tarde e com o pôr do Sol, chega o seu amor.
Alimentada a paixão atira-se a um longo beijo. Deitam-se abraçados no fogo dos apaixonados.
Abraçam-se, beijam-se, deixam passear as mãos pelos corpos ainda vestidos.
Mas nota uma distância, um brilho diferente no olhar daquele que ama. Um fugir de não sei quê.
Não entende.
Tanto tempo à espera daquele dia.
É afastado, empurrado para fora da cama.
Não entende.
Não consegue ler o brilho no olhar. A tristeza que lê neles, o olhar do amor que não é correspondido, mas que era ardentemente correspondido.
Ouve então: “Tenho de te dizer uma coisa...”
Assusta-se, não entende.
“Sou seropositivo”
Abraça-o e diz-lhe que o ama, que cuidará dele, sabendo no entanto que está condenado.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O telefonema



O café arrefece na mesa. Ao seu lado o telemóvel. Olha impacientemente para o telemóvel que costuma guardar no bolso das calças.
Mas é um dia importante. O dia em que poderá voltar a sonhar. Tudo depende do telemóvel que jaz na mesa ao lado do café já frio.
As outras mesas vão-se ocupando e desocupando com executivos apressados.
Não tem pressa. Olha fixamente o telemóvel que jaz na mesa ao lado do café já frio.
Começa a tocar. Tem medo de atender. Nervosamente, pega no telemóvel e espera mais dois toques. Não sabe o que fazer.
Atende sem ver quem é.
Ouve uma voz amiga. A voz de uma mulher. Tarda em realizar quem está do outro lado.
“-Já sabes alguma coisa?”
Desiludido, porque é a sua melhor amiga, reponde que não. E sem se despedir, desliga o telemóvel e pousa-o na mesa ao lado do café já frio.
As outras mesas vão-se ocupando e desocupando com executivos apressados.
Não tem pressa. Olha fixamente o telemóvel que jaz na mesa ao lado do café já frio.
Começa a tocar. Tem medo de atender. Nervosamente, pega no telemóvel e espera mais dois toques. Não sabe o que fazer.
Atende sem ver quem é.
Ouve uma voz amiga. A voz de um homem. Tarda em realizar quem está do outro lado.
“-Estou!”
“-Viva!”
“-És tu?”
“-Sim.”
“-Podes confirmar o teu número clínico?”
“-Um, Um, Nove, Nove, Quatro, Três. Como está Doutor?”
“-Bem, obrigado. Tu como estás?”
“-É o que eu quero que me diga.”
“-Estás preparado? Não é fácil o que tenho para dizer-te...”
“-Sim...”
“-Chegaram os resultados das análises. É a terceira amostra e repetímos três vezes para ter a certeza...”
“-Sim...”
“-É difícil. Custa-me dizê-lo...”
“-Nada pode piorar, Doutor. Estou preparado.”
“-Parabéns rapaz. Não detectámos nada. Parabéns!”
Não diz nada. Fica em silêncio. Consegue-se arrancar um inaudível “Obrigado” e termina a conversa.
Pousa o telemóvel na mesa ao lado do café já frio.
Vê a vida passar à sua frente. Sempre havia ouvido que a vida passa à frente dos que morrem, não dos que nascem. Vê a vida passar à sua frente. Não consegue sentir. Vê a vida passar à sua frente enquanto olha para o telemóvel que jaz na mesa ao lado do café já frio.
As outras mesas vão-se ocupando e desocupando com executivos apressados.
Não tem pressa. Olha fixamente o telemóvel que jaz na mesa ao lado do café já frio.
Vê a vida passar à sua frente. Sempre havia ouvido que a vida passa à frente dos que morrem, não dos que nascem. Vê a vida passar à sua frente.
Não consegue sentir.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Velho

Do lat. Vetùlu-, “id.”
adj.

1. que tem muita idade; idoso; 2. antiquado; antigo; 3. muito usado; 4. que exerce há muito uma profissão;
s.m.
1. homem de idade avançada; 2. coloquial pai;


Olhava para as mãos. Pele enrugada e palmas ásperas como se de uma lima se tratassem. Talvez por tantas vezes terem limado, lixado as imperfeições da vida.
Sentado à velha mesa de madeira, enquanto olhava sem ver para lá da escura cozinha, brincava distraidamente com o velho oleado pregado à mesa, já rompido pelos anos, quase tantos como os seus.

Passava os dias sentado entre a escura cozinha, enegrecida pelo lume do Inverno, e a soleira da porta, olhando a horta onde durante anos trabalhou de sol a sol. Já não havia as marcas dos regadios que sulcava todos os anos quando terminava a época das chuvas. A terra, então arada com a ajuda de uma jumenta, estava agora coberta de ervas, e tornava-se dura, como as suas memórias e a pele das suas mãos.

Não sabia que idade tinha. Estaria bem além dos noventa, mas desde que a sua velha, e também a filha velha, o deixaram, deixou de contar os anos.


Dos netos, nada sabia. Tinham deixado a terra em busca de uma vida melhor. A última vez que os vira foi no funeral da filha velha. Estariam grandes, seriam gente, a gente que ele nunca pudera ser. Até sabiam ler e escrever! Já não corriam atrás das moedas de vinte e cinco tostões, nem queriam apanhar a bicha para ir à pesca. Vira os bisnetos uma vez no funeral da filha velha.


“Moços da cidade, gente fina, querem lá saber do velhote e de dar o penso aos animais.”


Tivera mais sorte que muitos.
O velho que passava as tardes na tasca foi levado para um desses sítios onde os velhos se sentam uns em frente aos outros, numa sala bafienta, sem ver a luz do sol ou sentir o ar fresco que desce do monte. Foi a enterrar passado nem um ano.
À velha da venda, ali da vila onde está o cruzeiro, também a levaram para um desses asilos. Parece que caiu nas escadas e ficou em agonia, até que uma irmã a encontrou. Passa os dias a olhar para a parede sentada numa cadeira de rodas.


Ele não. Ele podia já não ter alegrias nem tristezas. Não sabia dos seus, mas tinha a sua velha casa, a sua velha mesa coberta com o velho oleado e podia sentar-se no velho banco olhando para a velha horta. Dos velhos amigos, só com um contava. O cão também velho, agora pachorrento, que se deitava aos seus pés nos longos dias. Sim porque com a velhice, os dias tornavam-se maiores.
Então o velho pensava que ainda tinha uma longa vida pela frente, porque cada dia era agora um ano, e porque tinha uma velha casa, uma velha mesa, uma velha horta e um velho amigo.E, acima de tudo, umas velhas mãos. Pele enrugada e palmas ásperas como se de uma lima se tratassem. Talvez por tantas vezes terem limado, lixado as imperfeições da vida.


Veio-lhe um sorriso aos lábios quando sentiu a brisa fresca que descia do monte. Olhava novamente para as mãos. E estas contavam as histórias dos que o deixaram.


Viu-se novo.
Acreditou que tinha uma vida pela frente.







Publicado aqui a 25 de Janeiro de 2008

Olhares

Há olhares tristes, olhares doces, olhares meigos, olhares assustados.
Há olhares apaixonados, olhares furiosos, olhares inquiridores, olhares frustados.
Há olhares frios, olhares quentes, olhares penetrantes, olhares indiferentes.

Que olhar é o meu hoje? Agora?
Olhar vivo? Olhar mortiço?
Olhar que só olha ou olhar que vê?
Olhar que define?
Olhar que interroga?
Olhar que intimida?Olhar que conforta?

Quando me olhas, que vês? Vês-me a alma, o corpo, um mar de letras sem sentido?
Quando me olhas, que vês? Vês o que sinto ou o que quero sentir?
Quando me olhas, que vês? Vês o que sou ou o que quero ser?

Apercebes-te de mim ou daquilo que quero que vejas?
Vês os meus segredos e tristezas? As minhas frustações e agonias?
Vês os meus choros calados e os meus passados escuros?
Vês a minha força imensa ou a minha imensa cobardia?
Vês os meus sucessos ou os meus sucessivos fracassos?

Afinal, que fazes com o olhar? Descobres ou deixas que te descubram?

Publicado aqui a 4 de Agosto de 2007

A Porta

Do lat. porta-, «id.»
s.f.
1. abertura em geral rectangular, feita numa parede ao nível do pavimento, para permitir a entrada ou saída; 2. peça que fecha essa abertura; 3. peça ou estrutura que permite o acesso ao interior de algo (carro, móvel, cofre, etc.); 4. entrada; acesso; 5. passagem estreita; desfiladeiro; garganta; 6. admissão; 7. solução; expediente;

A porta estava fechada.

Na pequena sala, entrava uma luz coada pela janela também fechada.

Apesar do ambiente sujo e bafiento, ele sentia-se bem naquela sala. Conhecia bem cada um dos seus cantos: o verde velho do sofá já coçado pelos anos e queimado pela luz; as marcas do caruncho na madeira do soalho; o cheiro bafiento dos velhos e carcomidos livros perdidos na estante húmida ao lado da porta; a sólida mesa de carvalho que vira passar a geração dos seus avós e a dos avós dos seus avós; conhecia até as manchas do bolor que apareciam e se multiplicavam no tecto, fruto de anos de porta e janelas fechadas.

Desde que ficara ali, só, estudara a sala ao milímetro e sempre se questionara sobre o que havia para lá daquela porta fechada.

Já muitos anos haviam passado desde que a cruzara pela última vez e não se lembrava do que havia para lá da porta fechada.

Ali, naquela sala, não estava triste, tão pouco estaria contente, estava abandonado ao conforto dos cobardes, ao desinteresse dos mediocres, ao bem estar dos ignorantes.

Um dia, sem saber porquê, levantou-se do sofá e pôs-se à frente da porta. Tentava escutar o que se passava do outro lado e adivinhar o que se passaria nesse outro lado esquecido, mas como vivia há muito tempo fechado naquela sala, os uivos do vento pareciam-lhe fantasmas. Cada som era uma ameaça porque não sabia o que era realmente.

Enquanto o medo o fazia encolher encostado àquela porta, a curiosidade invadia-o.

Com o passar do tempo viu a sala tornar-se pequena e o que era até então a sua fortaleza, a muralha que o defendia dos fantasmas que habitavam para lá da porta, passou a ser o seu cárcere, e a porta fechada o seu carcereiro.

Então, com um inexplicável impulso, abre a porta e sai!


Publicado aqui a 4 de Julho de 2007

Música

Do gr. mousiké, «relativo às musas», pelo lat. musìca-, «música; poesia»
s.f.1. arte de combinar harmoniosamente vários sons, frequentemente de acordo com regras definidas; 2. qualquer composição musical; 3. concerto vocal ou instrumental; 4. conjunto de sons agradáveis; harmonia; 5. cadência; ritmo;


dedicado a todos os que partiram antes do tempo


Os músicos entram na sala onde reina o ruído. Sentam-se e logo começam a afinar os instrumentos num caos que busca a forma.

Silêncio absoluto.

Começa a obra. Serena, perfeita, criando um rendilhado de harmonia sem muito que contar.Logo, um oboé melancólico lança a sua mensagem. Uma melodia simples, suspensa no ar, entram as outras madeiras, repetindo a melodia em diferentes tons e com subtis matizes. O tema desenvolve-se, cresce, muda os ritmos. Junta-se-lhe o grupo das cordas. Num crescendo louco e quasi agitato, até que irrompem os metais e a percussão, num tutti, um plenissimo, fortissimo, em que a subtil melodia do oboé nada mais é do que o apontamento longínquo da simplicidade que originou a histeria que enche a sala. Todos vibram e há uma necessidade enorme de repetir as emoções descritas.

E vem a fuga, o tema repete-se descoordenado pelos diferentes naipes, com sons diferentes e ligeiras variações, já longe, mas evocando o tema inicial. Esta espiral não se aguenta muito tempo e começa o contra-tema seguido da desconstrução do tema original, em ritmos compostos e sincopados, com intervalos imperfeitos e acima de tudo com cromatismos em que a dissonância passou a ser a regra. O crescendo não para, torna-se insustentável e, com uma explosão da percussão, detem-se subitamente e só o eco se ouve na sala, com a respiração suspensa dos ouvintes.

E logo, no meio deste eco, lá longe, o oboé retoma o seu tema perfeito, mas desfalecendo até se perder. O mesmo se passa com as flautas, os fagotes e os clarinetes. Numa raiva surda, os metais entram na luta, mas em vez de se evaporarem no ar, o seu tema já corrompido pelas suas limitações, acaba bruscamente como um grito que clama perdão. Ficam as cordas, que ornamentam o tema no seu virtuosismo fácil que busca a fácil emoção dos presentes. Mas estes ainda se lembram das madeiras e dos metais que partiram antes do fim da música. Uns desfaleceram, os outros explodiram. Mas todos antes do fim. Queríamos voltar a ouvi-los, mas já só há o eco na sala e as cordas que desenvolvem o tema, tornando a necessidade de ouvir o original, do doce e triste oboé, ainda mais presente.

***

Um dia o meu professor de improvisação disse-me que a música é o Homem. Enquanto a primeira tem ritmo, harmonia e melodia, já o segundo tem corpo, inteligência e emoção.Para mim a música é tudo isto e muito mais. É a arte por excelência, mas a mais falível. Não é preciso ir até a ela porque ela vem até a nós. Invade-nos os sentidos. Não é como uma arte plástica que temos que olhar. Não é literatura que temos que ler. Basta-nos entrar numa sala com música e já esta nos invade, quer gostemos, quer não. Assim é a vida. Mas ao mesmo tempo, ao contrário das outras artes é a mais mutável. Há a ideia original de quem a escreveu, a interpretação de quem a dirige, o expressão de quem a executa e a percepção de quem a escuta. Por isso a música, mais do que o Homem, é a vida onde infelizmente muito fica por contar.








Publicado aqui a 4 de Junho de 2007

Tempo

Do lat. tempu-, «id.»
s.m.1. sucessão de momentos, horas, dias, anos, em que se desenrolam os acontecimentos; 2. parte da duração ocupada por acontecimentos; 3. período contínuo e indefinido no qual os eventos se sucedem; duração;4. época em que se vive; 5. período considerado em relação a determinados acontecimentos; época; conjuntura; 6. duração limitada (em oposição ao conceito de eternidade); 7. momento propício; ocasião; oportunidade; 8. época própria para certas actividades; estação; quadra; 9. período determinado para a realização de algo; prazo; 10. falta de pressa; lentidão; demora; vagar;


Muitas vezes achamos que o tempo resolve todos os problemas. Já o diz a sapiência popular.
Mas o tempo é uma das maiores problemáticas que nos rodeia. Molda-nos sem darmos conta, como moldou civilizações e religiões. Já o diz Yourcenar no seu belíssimo conjunto de ensaios: “Le temps, ce grand sculpteur”, uma bela selecta de textos em prosa (poesia, diria eu) em que vemos o tempo como o maior (mas não melhor) escultor de todos os tempos.

Quando temos grandes decisões a tomar, principalmente as difíceis, deixamos o tempo correr e adiamos a decisão o mais possível. Foi assim, e assim será, porque esperamos que o tempo nos dê uma solução mais fácil. E nunca chega!

Já todos caímos no erro de deixar o tempo passar, mas como maior escultor, o tempo também é o mais implacável.

E o mais terrível é que o tempo molda a nossa apreensão de realidade de uma forma imperceptível. Quando olhamos para algo uma segunda vez, mesmo numa fracção de segundo, já não é o que vimos antes. Afinal, nada do que vemos é real. Está moldado pelo tempo. Mesmo o teclado em que escrevo é agora diferente do que quando comecei a escrever. Tem mais suor, e está imperceptivelmente mais corroído pela erosão do meu toque e do tempo.

Também o céu que vemos à noite não existe, porque o tempo tardou em trazer-nos a informação e tudo o que vemos são factos passados. Não existe o agora ou o presente. Existe o passado e o futuro.

Assim também o tempo actua sobre a nossa vida, os nossos sonhos. Vai corroendo numa erosão impercetível. E se esperarmos que o tempo actue por nós, quando olharmos à nossa volta, só veremos ruínas.
Publicado aqui em 31 de Maio de 2007