domingo, 19 de abril de 2009

Lago

Sinfonia da vida real

Abertura
Caminha despreocupado. Saira cedo do conforto de casa e como quem desperta de uma infância calma, deslumbra-se com as luzes e a profusão das cores.
A necessidade de conhecer tudo, fruto de uma curiosidade insaciável, levam-no a percorrer todas as ruas da cidade, das grandes avenidas e praças às pequenas ruelas e becos sujos.
Ao sair de casa, ao abrir a porta das paredes que o protegeram, não só deixara entrar a luz mas o espaço vazio que precisava de encher com experiências.
A cidade não bastava, passados dias, meses, anos, a novidade tornara-se conhecimento e nunca mais deixara de procurar novas paisagens, novos rostos, cheiros e sabores.
É este o dia em que o encontramos. Aventura-se para além dos limites da cidade, passa os subúrbios das casas dos ricos seguidos dos blocos onde habita a miséria. Mais adiante acaba a estrada e um caminho serpenteia por entre montes e vales. O caminho vazio, abandonado, que leva ao desconhecido.
Poucos são os que percorrem o caminho. Dizem-no perigoso, destruidor de almas, comedor de sentimentos, mas o abismo atrai-o e quer saber o que há mais além.
Já ao fim da tarde, antes do sol pôr, acaba o caminho, notam-se vários trilhos de outros aventureiros que procuraram acalmar a pressão que o vazio criara nos seus peitos esmagados por um enorme buraco. Decide tomar o seu caminho, não seguir o trilho de ninguém mas criar o seu.
O coração salta com a excitação do que é novo, único, seu. Sobe montes, desce a vales, a mata adensa-se, não há volta atrás. De repente, ao chegar ao cimo de uma colina vê um lago, um lago que brilha dourado sob o sol do fim da tarde.

Cadência Perfeita
Nas águas douradas, porque reflectem o sol do entardecer de um dia sem núvens, vê o reflexo do mundo. Vê-se reflectido nele e nessas águas paradas e limpas o mundo e o seu rosto integram-se numa harmonia invejável.

Suspensão
É o espelho do mundo perfeito, por descobrir. Um mundo que brilha porque brilha o sol e porque as águas paradas emprestam à paisagem a superfície macia que limpa a imagem espelhada das imperfeições, dos elementos e a tornam etérea e divina.

Síncopa
Descompassado, deseja as águas. O mundo e o homem não querem ser esse reflexo perfeito mas fazer parte da imagem reflectida na água. Quer ser água para dar imagem ao mundo e limpá-lo das impurezas, torná-lo perfeito e unido.

Dissonância
Já nu entra na água lentamente. Quer misturar-se nela, transformar-se em água pura, mas o seu movimento, a sua entrada no lago das águas calmas e limpas, move a água ao seu redor, distorcendo a imagem do mundo perfeito, alterando as linhas que já não são o reflexo do mundo. A sua própria imagem reflectida nas águas se distorce, torna-se irreconhecível até desaparecer.

Pausa
Quer voltar a ver a imagem perfeita e fazer parte desse mundo. A razão da sua entrega. Pára. Não respira. Imobiliza-se até as águas do lago encontrarem de novo a tranquilidade que dá ao lago a capacidade de espelhar um mundo perfeito. A imagem perfeita ressurge reflectida na superfície do lago.

Variação do tema
Não consegue manter-se muito mais tempo sem respirar. Na tensão provocada pela sua imobilidade, pelo seu não respirar, deixa de conseguir apreciar o mundo perfeito reflectido no lago. Deixa-se respirar e o ligeiro movimento dos seus pulmões dá ao lago um leve ondular que altera a imagem uma vez mais. A imagem é a mesma, ainda bela mas com linhas mais complexas, mais vivas, que ondulam ao sabor da sua respiração.

Contra-tema
Decide então mergulhar, fazer parte do lago que lhe dá o mundo belo, ser o lago, ser o mundo espelhado no lago. Abre os olhos e vê o mundo real para lá da superfície. Um mundo ao contrário, pintado pelo cintilar das águas atravessadas pelo sol e ainda assim um mundo tão perfeito como o que antes via reflectido na mansidão das águas.

Fuga e Coda
Não aguenta mais o não respirar, com um impulso vem à superfície para recolher ar e volta a mergulhar, impregnado que está por um mundo perfeito. A imagem do mundo passa a ser a real mas também a reflectida e ainda a vista para além da superfície do lago, nunca perfeita, nunca imutável, o vazio cresce no peito porque o mundo perfeito já não está ali, nem dentro nem fora da água, nem sequer espelhado na superfície. Num mergulho mais profundo chega perto do fundo do lago onde jazem outros seres incautos que um dia pensaram ser possível viver num mundo perfeito e por isso entregaram a vida que o lago exigiu. Sabe que ainda há mais mundo por descobrir e que para lá daquele mundo idílico e perfeito há um mundo real, não reflectido nas águas paradas de um lago profundo, havendo no meio dele um casulo que o havia protegido dos segredos das águas calmas. Sai da água decidido, esmagado por saber que nunca mais verá a imagem do mundo perfeito e dirige-se à grande cidade sem olhar para trás.

sábado, 24 de janeiro de 2009

O Camafeu


Soprava o vento lá fora, os poucos vidros que restavam suspensos da caixilharia de uma das janelas da casa, pareciam estremecer de frio com cada novo sopro do vento, ou talvez com medo de acabar como mais um escombro daquele lugar perdido entre eucaliptos, pinheiros e alguma palmeira exótica trazida doutro clima por algum emigrante que crescia resignada entre estranhos. Nesses tempos, éramos poucos os que ainda vivíamos aqui depois do incêndio do grande hotel do qual só tinha sobrevivido o palco da música, a gente tinha decidido esquecer...

Só uns quantos velhos nostálgicos e eu, um lobo solitário, vagueávamos neste lugar. Nessa tarde de tempestade estava a passear sob o meu guarda-chuva entre o entulho de sonhos frustados, pisando com raiva as folhas que se estendiam a meus pés, como um entardecer de verão e ouvindo o seu estalar. De repente senti algo duro sob a sola da minha bota, instintivamente baixei-me, e, com a ponta dos meus dedos toquei algo belíssimo, puro, pude sentir a sua magia, algo intenso, uma sensação única, o mesmo que um explorador a descobrir um sarcófago. Era um camafeu de marfim atravessado por uma estrela de prata velha e com uma pérola sem brilho num dos extremos. Desde a infância não tinha visto nada assim, parecido com os que costumavam usar as mulheres estrangeiras dos emigrantes que regressaram enriquecidos da diáspora. Recordo a minha mãe quando cozinhava para uma destas senhoras, dizia-me que, à noite, praticavam rituais estranhos para falar com os seus antepassados e parentes crioulos, envolvidas por uma atmosfera carregada de odores de erva molhada e de almíscar. Por isso pensei um pouco antes de levantar a bisagra corroída que o mantinha fechado porque podia guardar um mal olhado ou uma maldição... mas não pensei muito mais porque um ruído que vinha de uns arbustos tirou-me da minha cisma... Guardei o medalhão ainda fechado no bolso, fechei o meu guarda chuva de xadrez e com passo rápido fui para casa.

Ao chegar, a primeira coisa que fiz foi pôr-me cómodo, vesti o pijama de flanela para que me protegesse do frio intenso e sentei-me no cadeirão que está ao lado da lareira. Depois de passar uns momentos acariciando o relicário, decidi dar o passo que faltava e abri-lo. Assim que levantei o fecho, o sol colou-se às cortinas da sala iluminando-a e inundando o lugar de uma côr extraordinária que me cegava. Dando um passo até à janela pousei os meus olhos no sol que agora luzia entre os restos da tempestade como a polpa de uma romã madura, e, ainda que fechando a cortina, o sol continuou a colorir a sala de âmbar. Finalmente, já impaciente devido às contínuas interrupções, levantei a tampa e o que vi seria a última que esperava ver, nada, nada de nada, o camafeu estava vazio, nem um retrato, nem uns cabelos, nem os ponteiros parados de um relógio, nada. O que via era uma superfície de nácar irisado que toquei instantaneamente e que sob o reflexo daquela luz, brilhava como se fosse ouro. Ao fazê-lo, imagens de desespero, de sonhos desfeitos, de pena e impotência invadiram-me. Prantos, muitos prantos, e gritos, e de fundo, música de violinos e flautas que se tornava mais aguda e mais aguda... Era tanto o mau estar causado por aquela melodia cada vez mais rápida e penetrante, acompanhada por aquelas terríveis imagens, que soltei a medalha, deixando-a cair ao chão e sentei-me no meu cadeirão com a cabeça para trás. Estive assim vários minutos até ter coragem de enfrentar aquele objecto. Depois de reflectir um tempo, decidi que era melhor guardar a jóia e não voltar a tocá-la. Passado alguns dias, fruto da atracção que exercia sobre mim, abri-o novamente mas, para minha surpresa, onde antes havia nácar, só havia uma supefície lisa e negra. Decidi que o melhor seria vender a jóia, embrulhei-a em papel de jornal, amarrei o embrulho tosco com uma corda velha e meti-o no bolso do casaco, mas ao sair de casa tudo havia mudado, no lugar dos escombros calcinados do velho hotel erguia-se um majestoso edifício do qual saía gente muito elegante e famílias sorridentes, a margem do rio estava cheia de famílias que brincavam na água e os anciãos caminhavam pelos passeios cumprimentando-se. Não entendia o que se estava a passar, porquê tanta animação na cidade? Reparei que tudo o que via se tinha tingido da mesma côr que tinha visto havia alguns dias no nácar. Como se de um pergaminho ou de um retrato antigo se tratasse, tudo tinha tons de sépia que davam ao ambiente uma aparência de recordação. Pestanejei e quando abri os olhos, tudo era normal, tudo menos uma coisa, o nó da corda com que tinha atado o medalhão estava desfeito, ao abrir o embrulho, reparei que o camafeu estava aberto, e quando o quis fechar algo me impediu, a superfície do que eu supunha ser azeviche, tinha adquirido relevo e nele podia apreciar a cara de uma velha de rosto sulcado pelo tempo, de cabelo branco como tingido de flocos de neve e tão comprido que não cabia na reduzida superfície. Na sua cabeça repousava o vento encolhido e ao redor do seu pescoço havia amoras doces e morangos silvestres, e folhas secas, e penas e ramos. O seu sorriso era uma torrente de água fresca e no seu olhar via uma luz mágica que baixava da abóbada celeste e, dividindo-se em cores infinitas, penetrava o oceano e dele saia chocando com a concha esmaltada de um caracol. Nunca tinha visto olhar tão bonito, irradiava ternura, sabedoria e uma gotas de tristeza. Absorto nesta imagem, introduzi a ponta dos meus dedos na pedra como quem acaricia o seu cabelo sem despertar o vento que descansava nele como se fosse um ninho de pássaro. A anciã falou-me sem dizer nada, fez entrar em mim a sua mensagem e desvaneceu-se.

Agora eu sabia aquilo em que muito poucos acreditariam, sabia o segredo para devolver áquela terra a sua alma, o seu espírito, a sua alegria, o seu bulício.

A solução estava sob as velhas tábuas de madeira corroida do palco de música. Tinha sobrevivido ao impassível exército do fogo e, debaixo desse cenário de madeira que desfiz com facilidade, pude ver que algo palpitava com ritmo constante nas entranhas da terra. Cravei o camafeu no centro do círculo que formava o palacete e, nesse mesmo instante, um manancial de água brotou do chão libertando centenas de bolbulhas que continham os sonhos perdidos de tanta e tanta gente, os seus esforços, as suas lágrimas... dispersaram-se com o vento que polonizou todos os cantos da cidade. A música voltou a tocar, violinos e flautas, mas desta vez uma melodia de esperança, que acariciava as folhas das árvores.

Radica-se nesse canto o segredo desta cidade, na sua fonte onde se dissolvem sonhos e alegrias, memórias e tristezas: almas.

Nunca mais soube do camafeu, não sei onde o levaram as águas, espero que tenha sido levado a outra aldeia ou cidade, que esteja onde alguém necessite recuperar a ilusão.

domingo, 11 de janeiro de 2009

O olhar dos mortos

(dedicado a ti que me olhavas nos olhos)

A noite cai e ainda se faz sentir o pesado calor.

Descalço, caminha um menino, pele macilenta porque o brilho da pele negra se mistura com o pó do solo árido.

Canta. Caminha despreocupado e canta.

Ao longe, na casa ao fundo da rua, brilha uma luz pela janela. A luz dança como que embalada pela voz do menino.

Abre-se a porta e sai uma mulher negra, olhos negros, vestida de cores garridas que se abre num sorriso por onde sai a brancura imaculada dos dentes.

O menino, ao ver a mãe, deixa de cantar para soltar uma sonora gargalhada. Acelera o passo e corre no limite das suas capacidades atirando-se ao pescoço da senhora que o eleva do chão e o olha nos olhos.

Entram e sentam-se à mesa. O menino roda a cabeça e observa tudo. A sua nova casa, mais pobre, naquela cidade mais suja, a comida mais escassa e a água mais turva.

Naquela casa não há livros, não há televisão, há jornais, muitos, que cobrem o chão de terra e contam notícias de tempos idos.

À sua frente um prato de arroz e uma galinha assada. Notava-se que a mãe não fazia galinha regularmente. A pele queimada e o sangue nos ossos provavam que a senhora nunca tinha cozinhado uma. Mas o dia era de festa. O filho havia regressado e voltavam a ser uma família.

Come a galinha e o arroz vorazmente. A excitação do regresso a casa abrira-lhe o apetite.

Enquanto mastiga, mostrando o bolo revolvendo-se na boca aberta, olha a mãe que o olha embevecida. Vê-o comer, esquecendo-se de o fazer.

Não há palavras, há olhares.

O menino, enquanto mastiga e olha a mãe nos olhos, ouve os ruídos daquela África da qual não se recordava mas onde se sente em casa.

Compara-os aos ruídos da grande cidade, às máquinas infernais, aos alarmes, às sirenes constantes, às buzinas. Prefere os sons desta terra que agora é sua.

Prefere as cores também, e as temperaturas que tornam as roupas desnecessárias.

E o olhar brilha finalmente. Está em casa.

Eu também o olho nos olhos, vejo a história que ficou por contar. Ouço a mãe cantar-lhe uma canção de embalar enquanto pousa a cabeça no regaço.Sente o arrepio bom de estar em casa. Estremece. Abre os olhos e olha-me uma última vez, o olhar que conta a história. E assim, de olhos abertos, deixa-se adormecer no colo da mãe enquanto o olhar me diz: “Voltei a casa!”.

14 de Dezembro de 2008

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Era uma vez...


Era uma vez (porque as histórias deveriam começar sempre por era uma vez), então, como dizia eu, era uma vez, porque o tempo não interessa, passado, presente, futuro, se foi, é ou será não é o que interessa, o que interessa é que era já que era não fecha o tempo a um momento mas deixa-o aberto, e uma vez porque essa vez em que o tempo é irrelevante é única e pontual, porque há acção e cada uma acontece uma vez em dado tempo e nunca se repete. Mas como dizia eu...

Era uma vez um homem (podia ser uma mulher, o género não interessa, ou uma criança ou um velho, mas a idade, também essa pouco importa). Ou seja, era uma vez um homem que nesse momento não estava feliz nem infeliz, não tinha grandes problemas nem grandes alegrias, já as tivera, mas não nesse momento, e seguramente iria ter mais no futuro, quer tristezas, quer alegrias. Não era rico nem mendigava. Tinha amigos, família, pessoas de quem gostava menos e mais, pessoas a quem amava ou a quem não dava grande importância. Tinha o necessário para viver sem grandes luxos ou grandes apertos.

Diríamos então era uma vez um homem sem muito para contar e uma vida mediocre (no sentido de nada relevante se passar).

Então porque perco tempo a contar a história de alguém que não tem nada para contar e sobre um dia como a maioria dos dias?

Isto é o que o homem se perguntava. Então entra a acção e a história passa a ser história porque há verbo. Já não é uma descrição. O homem perguntava-se porque é que a sua história é uma história e ao fazê-lo transforma-a. Poder-se-ia perguntar mais vezes e então deixaria de ser uma vez e passaria a ser duas, ou três, ou mais, a monotonia tiraria o interessa à história já que nesse momento da sua vida não há nada de relevante para contar.

E deu-se conta que afinal havia algo de importante para contar. Deu-se conta de que pela primeira vez se perguntou porque é que aquele ponto da sua vida merecia uma palavras num papel, quando passava uma fase monótona e aparentemente igual a tantas outras, descobrindo que essa história se faz unindo esses pequenos pontos uns atrás dos outros até aparecer uma história onde os golpes da sorte (ou do azar) nada mais são do que os condimentos que dão sabor ao prato principal.

Dera-se conta nesse momento e nessa vez e não haveria outra igual, por isso começara com “Era uma vez”.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A Diva


Abre o armário onde guarda os vestidos dos seus concertos, entra e viaja pelo mundo, Lisboa, Londres, Paris, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Sidney, Tóquio, Amesterdão, Cidade do Cabo, Munique, Toronto, Buenos Aires,...

Pousa as mãos estragadas pela idade, pelas noites mal dormidas, pelos excessos, nas sedas, nas rendas e cetins, nos veludos que guardam ecos de auditórios cheios, aplausos calorosos e aromas idos; cada um guarda uma história de amor, uma entrega, uma paixão; paixão pelo público, pela música.

Pára no vestido negro, vê o grande teatro da capital a transbordar de gente que grita o seu nome, honras de Estado que celebram sessenta anos de carreira, sobre o vestido repousa a medalha de ouro de mérito cultural que a fizera embaixadora da cultura da pátria que um dia a amara.

Olhando o vestido, afagando o brilho da medalha nas suas mãos, sente-se traída, abandonada.

Desde o dia em que o vestira, não ouvira mais palmas, deixara de escutar o seu nome, como as dezenas de homens a quem se entregou de corpo e alma, sempre com o mesmo fogo, também o seu público, o seu grande amor a quem um dia dera tudo, a abandora.

Sente-se traída, a mesma dor do abandono, das paixões, dos homens que saciaram os seus desejos com a sua fama e a sua riqueza. Sente-se utilizada mais ma vez, aquela medalha é a prova disso, é o ramo de rosas vermelhas do homem que faz o sacrifício de dormir com ela para aceder ao seu dinheiro, é um país que se prostitui e utiliza aquela a quem chamou puta, aquela que a ele se entrega, para se promover nos quatro cantos do mundo.

Entretanto, esquecida e só, sente falta do calor do público, de ouvir a sua voz na rádio e na televisão, enquanto o vestido negro repousa no seu regaço e se ri dela.

Apesar dos seus quase oitenta anos sente as dores da traição e do abandono como na sua juventude.

Nesse fogo de dor e angústia, sai com o vestido negro entre os dedos enrugados e vai em busca de uma tesoura. O vestido ri-se dela cada vez mais alto, em gargalhadas de escárnio e nas palmas que ecoam e sobem de tom.

Palmas, não pode viver sem elas, não pode viver sem o amor do público.

Encontra a tesoura grande, senta-se na cama e prepara-se para cortar o vestido, fazê-lo em pedaços tantos como as palmas que com ele recebeu. O vestido guarda as memórias, as palmas que quer ouvir, não pode viver sem elas. Empunha a tesoura, vestido no colo, espeta-a no coração.

No dia seguinte a sua voz faz-se ouvir na rádio e na televisão, os seus discos voltam a vender para lucro daqueles que sempre se souberam aproveitar da sua entrega, enquanto uma multidão chora e aplaude a grande diva pela última vez.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Bordel


Havia ficado deslumbrado, no Teatro Colonial, na praça Central da cidade, de ver os homens baterem-se pelo sexo das mulheres, içarem-se dos seus assentos em tracção sobre os seus braços, depois golpearem os seus colegas ou velhos amigos íntimos que ignoravam, perto da passerelle onde elas desfilavam num pincel de luz, não perdendo de vista a cabeça escolhida para a colar às coxas afastadas, e eu assisto à distância num desses bancos de madeira, aterrorizado e atordido, encolhendo-me e incrustrando-me nesse banco à medida do desenrolar do espectáculo, o mais primário e mais triste do mundo, essa comunhão dos homens com o tosão das mulheres, esse impulso juvenil mesmo dos mais velhos para o atingir, eu bebia-lhes dos olhos os corações que batiam, quase desaparecendo sob o meu assento com medo de ser eleito por uma das strippers, pois forrar o meu focinho no seu triângulo era desvanecer-me definitivamente do mundo, e aí perder a minha cabeça para sempre, a desfolhadora avançava na minha direcção desafiando-me, chegava-se cada vez mais perto, mostrando o meu esforço como um elemento cómico ao riso dos outros jovens, prestes a acocorar-se em frente à minha cara e agarrar a minha cabeça encaracolada, a única loura entre toda a assistência, e maltratá-la até que os meus lábios se entreabrissem para honrar a fenda, e beber da sede dos jovens homens que aí se tinham saciado, mas de um só golpe as luzes se acenderam, a mulher surpreendida estremesse, atira o robe sobre uma cadeira e foge, e os obreiros escapam-se como bestas, a golpes de assobio ou mesmo de chicote, os jovens homens sequiosos ou saciados, que haviam perdido o seu entusiasmo num relâmpago como uma ilusão de óptica, uma ilusão de sombra, à luz onde eles se revelavam trabalhadores casados, de fatos descorados e mesquinhos, que tinham escondido a sua mulher na cadeira ao lado deles.

terça-feira, 10 de junho de 2008

A serenata



Fecha a porta com estrondo e avança destemido a passos largos sob a chuva copiosa.

As palavras que proferira momentos antes ressoam-lhe na cabeça. A violência das palavras toma forma e entranha-se, provocando o coração que se havia fechado, abrindo-o num latir violento e descompassado.

Acelera o passo sem olhar para trás. Não quer olhar para as janelas que escondem um amor despedaçado.

Decide virar à esquerda, já que a rotina o fazia ir em frente ou virar à direita. Assim, virando à esquerda, segue, rumo ao desconhecido, fazendo com que o passado se torne realmente passado.

Quer descobrir coisas novas que lhe desviem a mente das palavras que proferira, do sofrimento que deixara do lado de lá das janelas da casa de onde acabara de sair.

Mas as palavras ecoam e os seus olhos abrem-se num mar de lágrimas. Não é um choro convulsivo, são lágrimas que simplesmente deslizam pelo seu rosto molhado pela chuva, como se os olhos se tivessem enchido de palavras e não as pudessem conter.

Quem o vê não sabe que chora. As lágrimas misturam-se com a chuva que é tão violenta como as palavras que proferira minutos antes ao amor, agora despedaçado, que ainda se encontra do lado de lá da janela.


* * *

Sentado num café, vê um velho amigo.

"- Então pá, por onde tens andado?"
"- Por aí. E tu? Ainda só?"
"- É verdade, uma vez chegou!"

Conversa puxa conversa e o passado, o tal que se queria esquecido aparece de mansinho. O tal amor, o do lado de lá da janela regressara à cidade. “ – Queremos falar contigo.” – diz o seu velho grande amigo.

Os seus ouvidos recusam-se escutar a última frase.

“ – E como está? Passaram tantos anos...”

Mas, lentamente o cérebro vai decifrando a mensagem. “Queremos falar contigo” – e a frase já não lhe sai da cabeça. O coração aperta-se-lhe angustiado.

“ – Que queres dizer? Pensei que eras meu amigo.”
“ – Sempre o fui, Foste tu quem decidiu partir, quem nunca voltou atrás.”
E de repente o passado fez-se presente. “– De qualquer forma, amanhã celebramos uma nova vida em conjunto. A partir das cinco da tarde no registo civil da praça. Aparece!”


* * *

Está só no café.

“ – Amanhã às cinco” – pensa – “claro que não vou!”

Embriagado, sai. Está um dia como aquele em que saíra de casa depois de dizer palavras violentas que de novo ecoam na sua cabeça e apertam o coração.

Caminha à chuva, sente-se febril. Não sabe se é da chuva, do frio, do álcool ou do tabaco. Sente a roupa molhada numa mistura perfeita de suor e água da chuva.

Decide que não vai. Que desplante, aquele convite! Porque haveria de ir? Porque pensa tanto no passado?

“ – Mas porque não hei-de ir? É o meu melhor amigo, só provarei que o passado é passado.”

Chega a casa quando o negro do céu dá lugar a um cinza cumbo.

Sente-se cansado. Uma noite de chuva, álcool e tabaco deixara terríveis mazelas.

Não adormece de imediato. A febre, as dores de garganta não o deixam dormir e quando finalmente adormece, sonha com o seu melhor amigo e com o amor que um dia deixou do lado de lá da janela.

* * *

Abre os olhos. Está escuro lá fora. Olha para o relógio.

“ – Merda! Já são nove horas.”

Sabia onde era o registo, não a festa. Caminha apressado até ao registo civil que está fechado. Vazio.

Vai em direcção à casa que um dia deixara. A probabilidade de ser lá a festa é remota mas é a única referência que tem.

As luzes estão apagadas. Senta-se na soleira, perdido. Pára um táxi à porta e dele sai o vizinho da frente. Está velho e vem só sem a sua bela senhora. O preto da gravata diz que também o tempo acabara com o amor da sua vida.

Falam, recordam o passado, aquele que queria esquecer. E finalmente sabe onde é a festa. No hotel da avenida.

Despede-se do antigo vizinho, feliz com o encontro e dirige-se ao hotel da avenida.

Já não há festa. Sempre atrasado como que se o passado que um dia mandara embora, se tivesse ido por bem.

Senta-se n0 bar do hotel. Pede um copo para ver se alivia o seu estado febril, as dores do corpo, mas sobretudo as dores da alma.

Fala da festa com o empregado que o serve.

“– Grande festa! Devem ter muito dinheiro, imagine o senhor que ficaram na suite presidencial!”

Terminou rapidamente a bebida, pagou e saiu em direcção a casa. “– Se não me vêem, pelo menos ouvir-me-ão.”

* * *

A guitarra não tinha sido usada desde que batera com a porta da casa onde deixara do lado de lá da janela um amor despedaçado.

As cordas oxidadas ameaçavam partir ao primeiro acorde. O braço torto, a caixa empolada e o revestimento descolado.

Teria que conseguir. Sempre fizera serenatas que eram acolhidas com uma longa noite de carinhos e com um brilho especial no olhar.

Chega ao hotel, já o céu começa a clarear. Procura a janela da suite presidencial. Por baixo há uma floreira sobre a qual apoia a perna esquerda e nesta apoia a velha guitarra.

A guitarra aguenta os primeiros acordes enquanto a sua garganta estragada consegue emitir uma voz quente, profunda e doce.

Mas as cordas da guitarra começam a ceder àquele misto de bolero e bossa nova. Quando a última corda se parte, dá a volta à guitarra e usa a caixa mudada pelo tempo como percussão.

A sua voz enche a avenida na aurora daquele dia. Estragada pelo fumo, pelo álcool, pelas noites mal dormidas, também a voz acaba por ceder.

Olha para a janela e pensa “– Não me viu mas ouviu-me”.

Dirige-se a casa e ao passar à porta do hotel ouve o concierge dizer: “ – Era este o que fazia a serenata à suite presidencial, só que estes já devem estar a caminho das Maurícias.”

Enfia a guitarra sem cordas no saco.

E aquele passado que um dia despedira tão violentamente, nunca estivera tão presente, sem, no entanto, não deixar de ser passado.

domingo, 25 de maio de 2008

Fronteira


“Que estranho” – pensava - “Mudam de pele todos os dias!”

Ainda se adaptava aos seus novos amigos.

Tinham-no acolhido depois do seu companheiro de longos anos ter sido levado num carro amarelo com luzes azuis.

Nesse dia ficara ali a olhar. Correu atrás do carro até à exaustão. Ninguém lhe ligava. Vagueou pela cidade e regressou ao parque onde vivia com o seu companheiro.

Outros homens, estes vestidos de azul escuro e não de branco como os que tinham levado o seu companheiro, removiam os seus haveres.
Deitou-se à sombra de uma árvore, triste, só.

Quem lhe iria fazer companhia? Quem iria dividir com ele a comida? Notou que tinha fome e foi à procura de comida.

Já sem forças, depois de percorrer meia cidade, vê um portão aberto. Espreita.

Do lado de lá, um jardim. Bem cuidado, relva verde acabada de cortar. Dá um passo.

“Ping, ping...” – ouve água. Sedento da caminhada, segue o som. Entra sem hesitar.

O jardim é belíssimo. Mais bem cuidado do que o parque onde vivia com o seu companheiro levado pelos homens de branco num carro amarelo e luzes azuis. Não entendia porque é que este jardim não estava cheio de gente como o parque, principalmente num dia de sol como aquele.

Bebe e, sem forças, à sombra do frondoso plátano sobre a relva verde recém cortada, deixa-se dormir.

Sonha com o seu companheiro e amigo desaparecido.

Desde as suas mais antigas memórias, quando outro carro levara a sua mãe, não se separara dele. Ouvia as suas longas histórias à noite no parque sob o calor da sua mão. Sonhava que o seu companheiro cantava ao som da guitarra com apenas quatro cordas. Ouvia-o rir-se dele, de si mesmo, dos que passavam.

Exploravam o parque e a cidade. Sem horas. Fugiam dos carros azuis de luzes azuis, como quem joga às escondidas. Brincavam, corriam e riam. Amigos fiéis. Companheiros eternos.

Acorda com o som do portão que se fecha. Vê quatro pessoas, dois adultos e duas crianças. Tenta esconder-se mas antes de chegar ao arbusto é visto.

Baixa a cabeça, olha para o chão como se tivesse sido apanhado a cometer o pior dos crimes.

“ – Meninos, já para dentro!” – disse o homem.
“ – Pai, parece tão triste e está tão magrinho...”
“ – Mas está sujo e pode estar doente, por isso lá para dentro!”
“ – Pai, tem fome, não o podes mandar embora assim...”

Ao ouvir a voz da criança, olha para ela. Levanta a cabeça e dá um passo. O seu olhar, no entanto, mostra uma enorme tristeza.

“ – Pai, deixa-o ficar, Queremos brincar com ele.”
“ – Sim pai, deixa lá, deixa, deixa!...”

A mãe esboça um sorriso.

“ – Vou preparar-lhe um banho e algo de comer. Tens fome não tens?”

Não se lembrava do seu último banho, ou se alguma vez tinha tomado um. Não gostou muito de entrar na água, mas aquela mão macia que o acariciava, a voz quente daquela senhora e a alegria constante daqueles meninos davam-lhe uma sensação de conforto e de carinho.

Deram-lhe comida. Comida só para ele. E muita. Daria para uma semana, talvez duas!

Duas semanas passaram. Agora dormia sob um tecto. Tinha comida todos os dias. Brincava com os meninos.

“ – Esta gente é estranha, boa mas estranha. Come a horas certas, saem de manhã cedo e só regressam ao fim da tarde. Não me deixam ir além do jardim e da cerca para explorar o que há do lado de lá. Sentam-se em frente à caixa das luzes e dos sons em vez de ir brincar e conhecer o mundo com os seus cheiros, os seus sons e as suas cores, como o fazia no parque” – sim, a caixa mágica tinha cores e sons, mas não tinha cheiros.

Olhava para eles. Observava-os. “ – Que estranho” – pensava – “Mudam de pele todos os dias!”

Estava grato a esta gente, a sua nova família, mas tinha saudades. Saudades do seu companheiro, de explorar o mundo, de não ter horas, de nunca estar só, de fugir dos carros azuis das luzes azuis como quem joga às escondidas, de ouvir histórias, de ouvir cantar.

Além de lhe mudarem os hábitos, mudaram-lhe o nome. Agora era Bobby. Antes era Mawgly, mas também a este se habituara.

sábado, 3 de maio de 2008

O outro lado da janela



Era o fim da tarde. Um fim de tarde de um complicado dia em que decidiu deixar o trabalho e foi até ao café envidraçado sobre a praia.

Sentou-se só junto à vidraça e pediu um chá. Um simples chá preto, sem açúcar, numa chávena embrulhada pelas mãos frias por causa do frio vento do norte que soprava lá fora e da bruma que se levantava.

Olhava o mar revolto que espelhava o céu chumbo que prenunciava a chegada da tempestade. Nesse mar distinguiu um barco que chegava à praia.

Atracou e um homem só, bravo homem, amarrava o barco com uma desenvoltura e energia que gostava de ter.

E ali estava aquele homem na praia, livre, sem medo.

Aquele homem seria como as gaivotas que voavam sobre a esplanada, agora fechada, daquele café sobre a praia.

Era livre, vivia em contacto com o mar, com a natureza. Estaria concerteza mais perto de Deus.

Não tinha nada a provar, seria feliz com uma vida dura mas simples.

Ficou feliz por saber que há gente que é livre, que não tem provas a dar, com corpo e alma para defrontar o violento mar, enquanto a si, de corpo doente e cansado, tudo exigiam. Uma imagem, uma postura, uma impossibilidade de amar e de apreciar as coisas simples da vida.

Sentiu inveja, uma inveja saudável daquele homem que parecia feliz, que disfrutava de uma vida simples sem pretensões, sem imagens e com amor.

Sentiu-se só, de alma vazia.

Por isso chorava.

domingo, 20 de abril de 2008

O vulto na janela

Olhava aquele vulto pela janela.
Com a bruma que vinha do mar naquela tarde de plúmbeos céus, não conseguia distinguir as feições.
Estava sentado a uma mesa. Só. Uma mesa encostada à vidraça daquele café sobre o mar.
A humidade daquele mar tormentoso, o ligeiro embaciamento do vidro mostrando que a temperatura ali dentro era bem superior à do vento frio que soprava do norte, davam uma opacidade mágica ao vidro, que tornava o seu interior mais confortável e acolhedor do que o seu barco atracado na praia.
Olhava aquele vulto sentado junto à janela. Não podia aperceber-se do que estava pousado na mesa. Um café quente, uma água refrescante, um simples sumo de laranja ou um exótico sumo de frutos raros. Podia ser ainda um sensual copo de vinho tinto.
Não sabia se era homem ou mulher, novo ou velho. Era adulto, sim, tinha a estatura e postura de adulto.
Parecia-lhe feliz. Um vulto afortunado que numa tarde invernosa relaxava com uma bebida num café sobre o mar. Enquanto ele, ele atracava o barco na praia, ao sabor do frio e do vento de norte no meio das tão famosas brumas que o Atlântico empresta, por vezes, ao final da tarde.
Ficou feliz por saber que há gente que pode passar uma tarde no café sobre o mar enquanto ele ganha a vida, arriscando-a naquele pequeno barco, agora atracado na praia.
Sentiu inveja, uma inveja saudável daquele vulto, que parecia feliz e confortável, que disfrutava de uma bebida numa janela sobre o mar.
Só não sabia que esse vulto chorava.